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O Vôo do Pekeno

Armando Pekeno, coreógrafo baiano com residência na França, volta à terra natal com sua companhia: Representamos uma forma de luta pela liberdade

Correio da Bahia, coluna Folha da Bahia, Terça-Feira, 16 de Abril de 2002

Doris Miranda

photoHá dez anos, quando saiu do Brasil, o bailarino e coreógrafo baiano Armando Pekeno já tinha nome. Era dono de um largo currículo que registrava, entre outras coisas, trabalhos substanciais com o BTCA (Jogo de búzios e Cor da lua), a Orquestra Afro Brasileira, fundada pela pesquisadora Emília Biancardi, e o professor King. Coreografou para diversas companhias independentes, como a Mantra Cia. de Dança, os grupos África Poesia e Chama. Apesar do prestígio, duramente conquistado para uma pessoa de origem humilde, deixou a Bahia com uma sensação de que poderia render ainda mais lá fora.

Dito e feito. Armando Pekeno rodou o mundo, dançou onde pôde e superou com dificuldade o trabalho qualificado como folclórico, por usar elementos de capoeira e candomblé. Encontrou, então, pouso definitivo. Desde 1992, Pekeno, 41 anos, vive e trabalha em Rennes, na França, onde montou a companhia de dança Ladainha. Ao lado da inglesa Michelle Brown, que administra com ele o trabalho e também coreografa a equipe de quase dez pessoas, Pekeno conseguiu conquistar um estilo próprio, respeitado em diversos países da Europa e Américas. Tive que esquecer o Brasil para entender as coisas lá fora. O resultado é que hoje sou um cidadão do mundo, diz.

Mas, como a saudade não tem hora para apertar, ele, que já tinha desistido de voltar a trabalhar nestas bandas, arrumou as malas e aportou em Salvador. Trouxe também parte da companhia para montar um novo trabalho, gerado no clima da terra de todos os santos. Com a fala mansa, um jeito suave de movimentar as mãos, Pekeno vai dando as pistas do que vem por aí. Deixa claro que é a emoção a dona da vez. Sim, porque para resgatar a vivência de anos atrás, teve mesmo que percorrer velhos circuitos, falar com quem já não via há tempos, engajar-se em projetos de cunho social. Quem está ligado somente em técnica não entende meu trabalho. Fizemos um híbrido de várias culturas e isso tudo está da nossa dança, explica esse filho atípico de Xangô.

Ele tem um trabalho interessante, faz pesquisa, transposição do afro para o contemporâneo, trilhando um caminho muito pessoal, confirma a pesquisadora Lucinha Mascarenhas, que lança nessa quarta-feira o livro Passos da dança - Bahia, um painel do cenário local nas últimas décadas. A co-autora da publicação, a coreógrafa Lia Robatto, que trabalhou com Pekeno no BTCA, acrescenta que a herança africana, cultura da qual todos nós somos portadores, é muito forte nele, apesar da preocupação com a contemporaneidade universal. Há uma dinâmica de movimento muito especial em Pekeno. Ela define bem aquilo que pode ser qualificado como a busca essencial do bailarino, o que ele confirma, sem medos: A espontaneidade é a chave mestra da coisa toda.

A companhia Ladainha, composta por sete bailarinos e dois músicos, foi criada justamente para dar vazão a estes conceitos, juntar no mesmo caldeirão a força essencial da capoeira, do candomblé e da dança contemporânea. Representamos uma forma de luta pela liberdade psíquica, espiritual e artística. Recusamos qualquer tipo de restrição, explica seu diretor. Vale dizer que a Ladainha chega a Salvador subsidiada pelo governo e por várias entidades não-governamentais da França, entre elas a Villa de Rennes, o Conseil General de Ille Vilain, o Conseil Regional de Bretagne, o Triangle Plateu pour le Danse, o Spedidame e o Centro Coreográfico Nacional da Bretanha. É uma pena que no Brasil não haja política desse tipo. Na Bahia tem tanta gente de talento, finaliza.

Autobiografia em movimento

Uma maneira inusitada de contar a própria história. Armando Pekeno partiu do conceito das palavras circundar, abraçar, percorrer em volta para traçar sua trajetória, desde o início de tudo, o seu nascimento. A companhia de dança Ladainha apresenta, às 21h do próximo sábado, o projeto do espetáculo Arrodeio, no palco do Teatro Gregório de Mattos (Praça Castro Alves), que acontece com entrada franqueada ao público.

Fazemos um espetáculo diferente a cada ano e este era para ser inspirado no livro O alquimista, de Paulo Coelho. Mas, então, cheguei à conclusão que seria melhor fazer a minha autobiografia, resgatar coisas importantes de minha história. Arrodeio significa ter jogo de cintura, poder superar os obstáculos, define, com autoridade sobre o assunto.

Concebida no ano passado, quando Pekeno fez uma visita rápida a Salvador e ficou mais íntimo de trabalhos sociais bem estabelecidos na terrinha, como o Projeto Axé, por exemplo, a coreografia mistura as já tradicionais influências do dançarino. No palco, surgem toques e passos de capoeira e candomblé, mesclados com as danças contemporânea e clássica. Encontramos nossa própria linguagem, o nosso jeito. É isso que precisa ser feito sempre, afirma.

Arrodeio, a coreografia, como ele faz questão de dizer, ainda não está finalizada. A amostragem de sábado terá duração de apenas meia hora e a estréia oficial só acontecerá em outubro na França. Por isso, não vamos cobrar. Essa apresentação é como um agradecimento, uma introdução da companhia aqui. Respeito o lugar de onde vim, quero mostrar o que aprendi, agradecer o que conquistei, explica Pekeno.

Antes da coreografia principal, o público confere outras duas menores, concebidas por Michelle Brown, sua parceira no comando do grupo. O espetáculo de Armando Pekeno conta com participação dos amigos brasileiros Célia Carvalho e Celie Carvalho, Leandro Nascimento e Genivaldo Muniz, no corpo de dança, e o músico Vovô Saramanda e a cantora Simone, fazendo som ao vivo com o francês Michel Pinot.


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