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par Lúcia Palmares
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revisado em 28 maio 2007

Lúcia Palmares

Lúcia Querino, nascida em Salvador, Bahia, em 15 de Maio de 1955, aluna de Mestre Nô a partir de 1971; recebeu a corda de professor em 1979 e passou a ensinar capoeira em Salvador até 1992, depois em Santos, SP, e em Paris desde 1996.

Lúcia Querino nasceu em Salvador, Bahia, no 15/5/1955. Foi aluna de capoeira de Norival Moreira de Oliveira, o Mestre Nô, a partir de 1971, na academia Orixás da Bahia, na Massaranduba, sendo a primeira aluna mulher do mestre. Recebeu o cordão de professor em 1979.

Ensinou no Centro Suburbano de Capoeira (rua 2 de Julho, 19, Alto de Coutos) do Mestre Dinelson de 1980 a 1990. Recebeu o cordel de Contra-Mestre entregue pelo Mestre Nô em 1987.

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No 2º batizado do Grupo Palmares em Santos em dezembro 1994 compareceram os mestre Braulino (aí em pé), Bandeira (agachado a direita) e Sombra.

Em 1992 mudou-se para Santos (SP) onde, depois de algum tempo, começou a dar aulas de capoeira na academia de musculação do Ely. Obtida, por telefone, permissão do mestre Nô para usar o nome de capoeira Palmares, o grupo apresentou-se aos capoeiristas santistas em primeiro batizado em 4 de janeiro de 1993. Lúcia passou a trabalhar na Casa de Cultura da Mulher Negra (O.N.G. santista). Na ocasião da Semana de Zumbi, uma colega propôs chamar Lúcia de Lúcia Palmares; daí em diante, usou este apelido.

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Lúcia em Paris.

Em 1995 viajou para a França, onde se mudou em 1996. Fundou o Grupo Capoeira Palmares de Paris em setembro desse ano, junto com Pol Briand, no R.D. Sporting Club (Paris 10e). Fechada esta academia, o grupo transferiu-se no Studio Coustou (Paris 18e), e quando este também fechou, para o Espace Fontaine onde continua.

Lúcia Palmares também dou aulas de capoeira nos municípios suburbanos de Torcy e Champs-sur-Marne. Ministrou dias de iniciação à capoeira para professores de educação física em 1999 e 2000 (v. texto de reflexão) e continua exercendo o seu trabalho de cuidados aos idosos.

Textos

Lembranças

Iníciando

Minha melhor amiga Lúcia me chamou para ir juntos visitar Seu Máximo, o tio do seu namorado. Fomos na Mangueira, no bairro da Massaranduba. Ficamos conversando na sala, eram todos pessoas alegres, conversadeiras, seu Máximo deixava todo mundo bem a vontade. A conversa demorou. Horas.

Num determinado momento ouvimos o som do atabaque na outra rua. Seu Máximo levantou e disse que a conversa ’tava boa, mas que tinha de ir p’ra capoeira. Ele era quem armava e afinava os berimbaus e os pandeiros. Também tocava um pandeiro terrível. À noite na rua junto com três ou quatro amigos, tocavam pandeiro e viola, cantavam até de madrugada. Na academia de capoeira só não tocava atabaque, Tutú era quem cuidava disso. Seu Máximo não era aluno na capoeira, era simpatizante. Todo mundo o respeitava. Jogava capoeira na roda sempre de calça camisa e conga ; e era ele o único que Nô deixava jogar de pé calçado. O rolê dele era o mais rápido dos que já vi, e não ficava tonto.

Naquela tarde eu pedi para ir ver a capoeira.
– Estou doidinha p’ra aprender a capoeira, seu Máximo.

Eu tinha quase dizesete anos, estava curiosa. Era a primeira vez que conhecia alguém ligado à capoeira. Tinha visto nas festas de largo, mas mesmo assim minha Mãe não me deixava me aproximar. Lembro que um dia que na festa da Boa Viagem ela me puxou pela mão no momento que eu queria ver uma roda que tinha, bem na frente da igreja. O que eu sabia da capoeira é que tinha berimbau, que as pessoas jogavam, faziam movimentos; agora não sabia quais movimentos. Minha Mãe me puxava para longe das rodas, dizendo que não prestava, mas não dava explicação.

Seu Máximo prontamente nós levou lá. Andamos uma pouca distância, e no caminho seu Máximo falou de capoeira, que era boa, que lá tinha uns caras bons p’ra caralho e eu falei que estava louca para aprender (e por que, eu não sei) e ele me incentivava, mas não falou que lá só tinham homens. Se tivesse falado, eu não tinha ido. As moças naquele tempo ficavam longe dos homens, por recomendação das mães. Na rua, se tiver um grupo de homens, nós atravessávamos para o outro lado.

O barulho do atabaque se fazia mais forte. Paramos à frente de uma casa branca, de só um andar terreno. Seu Máximo bateu na porta fechada. Um homem mal encarado, que chamavam de Barriga, abriu a porta. Entramos, todo mundo estava conversando, uns vinte-cinco homens suados, negros e mulatos, sem camisa. Tive medo. O salão era uma sala grande de chão de cimento vermelho, liso, com paredes brancas. Tinham duas janelas para a rua, mas na hora que fomos, estava tudo fechado. O vento que entrava vinha da porta do fundo, que dava p’ra maré.

Fiquei firme apesar do temor. Seu Máximo me levou até um homem sentado num banco perto da porta do fundo.
– Nô, trouxe essa minina aqui, ela quê aprender capoeira.

O homem me olhou de cima p'ra baixo.
– É verdade, eu quero mermo aprender capoeira. E vou aprender.
– Veremos.
– Quanto que é ?

Falou que era quinze cruzeiros. Os treinos eram sábado à tarde e domingo de manhã.
– Então ’ta certo. Na semana que vem, Sábado eu venho. E vou ser a sua primeira aluna que o senhor vai formar.

Naquele tempo ninguém ainda chamava o Nô de Mestre.
– Isso nos vamos ver, falou ele fazendo pouco caso.

A roda ia começar. Eu saí, voltei para a casa do seu Máximo. Ficava matutando um jeito de como falar. Lúcia me esperava. Eu falei para ela que ia entrar na capoeira, e pedi para ela entrar também. Mas ela disse que não, e até reprovou. Mas eu não liguei. Ainda tinha de convencer minha Mãe, que ia dever pagar a mensalidade.

Aproveitei na segunda-feira que minha Mãe estava de boa maré.
– Minha mãe, lá perto da casa do namorado de Lúcia, tem uma escola de capoeira. Tem um monte de menina, e eu quero aprender. É quinze cruzeiros. A senhora deixa ?
– P’ra que que quer aprender capoeira ? Você já não presta !
– Ah, minha Mãe, que que tem ?
– Capoeira é uma luta de vagabundo, uma coisa de preto!

Eu insistia.
– Ó, minha Mãe, é tão bonito ! As meninas já jogam capoeira, precisa ver. Deixe !

No final, ela aceitou. Depois eu falei para Pai quando ele voltou, à noite.
– Capoeira é muito bom. Mas eu queria que você aprendesse natação.

Entrei na capoeira disposta a aprender, apesar do medo que sentia das pessoas, e de não gostar do ambiente que passei a freqüentar por causa da capoeira. Eu não era rica, mas não estava acostumada com aqueles tipos de pessoas, que falavam gíria, xingavam, bebiam e fumavam. Foi um choque. Criei tolerância para aceitar aquele mundo que desaprovava, mas achei um motivo para aceita-lo de bom grado : a capoeira.

Enquanto era lá na Mangueira, os treinos de sábado demoravam de uma hora até seis horas ; domingo era mais curto porque era domingo. As vezes no domingo, terminado o treino a gente ia para a Ribeira para jogar lá.

O nome do grupo era Retintos. Tinha treino técnico de movimentos de capoeira, tinha ginástica, principalmente de abdominais e cintura, tinha treino com saca (que era de dois sacos de marinheiro cheios de uma mistura de areia e de pó de serra cobertos por outro saco de pano mais macio, que machucava ao bater), treino de intrumentos, sobretudo no domingo; tinha também treino de murros, o treino de defesa de faca e de cacete do Barriga (apesar do que quando era nova, não entrava nestes) com faca e facão de madeira para fazer os ensaios, treino de maculelê, e tudo era determinado por Nô, que mandava. O salão permanecia fechado até um momento antes da roda começar. O chão ficava todo molhado. Para fazer a roda precisava alguém enxugar. Quem dirigia as aulas de capoeira eram o Grande, o Dinelson e o Goliás. Nô não ia na roda e não jogava com aluno novo. Quem preparava os alunos eram esses três. Raros eram os casos em que Nô dirigia as aulas.

No primeiro dia de treino, eu já conheci o Tutú, que ia me incentivar bastante na capoeira. Mas no primeiro contato, teve medo dele. Era um negro de uns sessenta anos que pareciam cinqüenta, com um pescoço enorme e uma voz de trovão, e a mão parecia uma garra grande. Quando ele segurava alguém, não soltava. Era brabo ; ex-lutador de grego-romana do tempo de Valdemar Santana. Naquele tempo a Baixa do Petróleo era um lugar falado. Diziam que era lugar de desordeiro, de gente ruim. E Tutú era respeitado ali por todo mundo, por gente bom e gente ruim. Entretanto ele gostava muito de beber. Ai batia no peito e dizia :

– Me chamo Tolentino Nicolau dos Santos!

Zangado, ele desconhecia qualquer um. Se ele segurava um porrete, ele quebrava tudo. Na casa dele tinha uma mulher –a segunda esposa–, uns filhos, um porrete tudo enfeitado de papel colorido, um facão e um revólver. Ele me mostrou depois, quando criei confiança.

Uma vez ele chegou contrariado na academia, e começou a provocar os meninos bons de capoeira que tinha lá. Era uma espécie de desafio.

– Esses cara aí pensa que são bom, são de nada, pego tudo e estouro tudo no pau.

E ficava, xingava. Até que os meninos, orgulhosos, chamaram ele para o salão; aí Tutu pegou um porrete de mais de um metro que se achava pronto como sempre atrás da porta. Ele se plantou de costas para uma das colunas da parede do salão, com o porrete formando barreira horizontal a frente dele.

– Venha todo mundo !

E os meninos foram. Tinha Ferra-Brás, Pacífico, João Miséria, Dinelson ; tinha Golias, Elias e outros lá, uns oito, tudos bons de capoeira. Nós, o pessoal mais novo, ficamos assistindo de longe.

Cada um tentou do seu lado, e Tutú bloqueio todos, e todos ficaram com dores, que na canela, que no pé, que no braço.

– ’Ta vendo que vocês são de nada, vocês são tudo bunda mole, gritou Tutú, e saiu do salão para o escritório que estava na frente.

Nô, homem calmo e incapaz de xingar alguém não gostava dessas coisas; e foi provalvelmente devido a isso que Nô não veio mais dar aulas para gente depois dele mudar para a Boca do Rio, mesmo sendo o mestre da academia. Vinha ver de mês em mês, dirigia os batizados, e preparava os alunos para se formar.

Na rua Carlos Lopes

A gente não pude ficar na Mangueira e passou para o terreiro de candomblé de seu Dudú, um salão pequeno e ruim. Depois Tutú arrumou para gente o salão na rua Carlos Lopes, número 53, em Massaranduba, que era a escola do primeiro grau Primeiro de Maio. Os treinos eram nas terças e quintas a noite, sábados de uma as seis da tarde e domingos de nove horas a meio-dia. Tutú amontoava as mesas e as cadeiras dos alunos na outra sala, e exceto no sábado, no final dos treinos tinha de colocar todo de novo no seu lugar. Mesmo com calor e cansaço; ele não admitia que se deixassem as cadeiras. Esbravejava, xingava, bloqueava a saída, e num instante se recolocava tudo no lugar. Uns quatro anos depois,Seu Martim, que era presidente das sociedades de melhoramento e conversava muito com Tutú, conseguiu o prédio todo para a capoeira.

Tinham três salões separados por um tablado de madeira e três degraus. Començamos ocupando o salão de cima, e fomos enchendo o lugar com o crescente número de alunos.

Tinha um círculo pintado de branco no chão de cemento bruto, liso, que Tutú vivia pintando e repintando, o lado dos instrumentos, berimbau, atabaque, pandeiro, agogô, tocados em pé atrás de uma linha também pintada, duas alas de alunos em pé de vários tamanhos, os mais fortes perto dos instrumentos, os orelhas-secas do lado oposto, perto do banco das visitas, que fechava o quadrado.

Na roda o atabaque ficava no meio dos outros instrumentos. A gente saia do pé do atabaque, os berimbaus eram nos lados. Não se interrompia o jogo. Só se entrava quando o berimbau chamava ou num sinal de olho do Nô. Só no finalzinho existia jogo de compra-compra.

Nos treinos da Carlos Lopes, os três contra-mestres trabalhavam do início ao fim. Dividiam a turma em grupos, dos novos, dos velhos, e cada aluno ia treinar com um dos três. Ainda tinham a responsabilidade de segurar a roda quando vinha uma visita violenta. Nestes casos, Grande bloqueava a saída, de braços cruzados, olhando a roda da frente da janela aberta. Caso os contra-mestres presentes não davam conta das visitas, aí ele entrava. Nô e Barriga seguravam berimbaus, seu Máximo gostava de tocar berimbau e pandeiro, Tutú permanecia no atabaque, e os demais instrumentos eram para nós tocar.

O mestre era Nô; Nô ditava as regras dentro da capoeira. Mas a cabeça do grupo era Tutú. Era ele quem batalhava junto às sociedades de melhoramento, aos políticos do bairro, para conseguir um espaço próprio. Isso era o sonho dele. Para isso, não poupava esforço. Tudo o que homem dizia, ele fazia, ia ali, ia aqui, até trabalho na casa deles fazia em troca de favor, se fazia de encanador, de pintor, de pedreiro, tudo para obter uma amizade, e daí, os pedidos. Quem dava para ele a oportunidade de chegar perto desses homens era o Seu Martim, presidente geral das sociedades de melhoramento de Massaranduba. Se tinha festa nas sociedades, nos colégios, a gente ia. O Tutú também convidava vereadores, políticos, deputados, para vir no sábado no salão da Carlos Lopes.

Uma tarde de sábado, já com dois meses nas aulas, eu treinava com Golias quando Nô chegou. Ele passou, e fui sentar no tamborete perto da porta do fundo para conversar com Tutú. Quando começou a roda, ele me chamou para jogar. Eu não tinha malícia de jogo, mas sabia fazer os movimentos. Ele gostou, e daí em diante, de vez em quando jogava comigo, e orientava alguma coisa.

Nos sábados, a roda começava aproximadamente às quatro horas. Uma vez, quando eu já tinha três anos de treinamento, mais ainda não tinha muita malícia, por volta de duas horas, Nô falou antes de começarem os trabalhos :

– Oi pessoal ! Lá para umas três horas vai chegar o doutor Fulano, o Doutor Sicrano pra nós visitar. Eu quero um jogo bonito pra mostrar para as visitas que a gente ’tá trabalhando direito.

Tutú que estava do lado acrescentou :

– É um jogo bonito ! Nada de violência que não é pra tê ! Depois deles sairem voceis podem se matá.

Todo mundo começou a treinar, os mais velhos entre eles, os mais novos com os contramestres. Tinha muita gente; a gente já ocupava a metade do salão do baixo.

Eu estava neste salão com duas meninas, duas irmãs, que tinham chegado uns três meses antes, que pertenciam a um grupo folclórico de espetáculos e se achavam as melhores do mundo. A gente escutou o vozeirão do Tutú que vinha de lá da frente.

– Vão ajeitando as coisas aí que os home ’ta chegando !

Levantamos, e Nen, a mais velha, falou assim p’ra mim :

– Olha, você não vai esquecer do que Tutú falou. A gente vai fazer o jogo de compradre.
– Eu, tudo bem...

Eu estava sem falsidade. Ia obedecer o que Tutú falou. Quando chegamos no salão, tudo mundo já tomava suas posições. No dia da visita, nem Tutú nem Nô iam puxar a roda. Iam primeiro conversar. Então Tutú apresentou Nô aos políticos. Nô apresentou a gente :

– Nós estamos honrados da presença dos senhores aqui no nosso modesto salão. Apresento para os senhores o grupo Orixas da Bahia, e como a gente não tem muito para oferecer a não ser uma pequena demostração do nosso trabalho, nós vamos fazer uma breve roda de capoeira.

Os políticos e seu Martim agradeceram e sorridentes tomaram assento no banco do fundo. Tutú e Nô atravessaram o salão. Nô se agachou a frente do atabaque, que naquele tempo se achava no meio dos demais instrumentos, Tutú ficou do lado dos instrumentos observando. Os contramestres começaram a tocar. Nô neste dia cantou uma ladainha e depois convidou o mais novo para começar o jogo.

Todo mundo foi jogar. Os políticos olhavam com interesse, principalmente quando jogavam mulheres, o que era raro. Até que chegou a minha hora de ir. Foi com Nen. Saimos para jogar em cima e em baixo. No meio do jogo, ela me deu o chapéu-de-couro que estalando no meio das minhas costas me ensinou a não acreditar conversa de capoeirista.

Mudei a minha ginga pronta para revanche. Quando ela se abriu, dei uma benção segura nela que a fez cambalear na roda. No momento que cambeleou, a irmã comprou o jogo. Tinha visita : o Nô deixou para eles não perceberem. Eu senti um receio, mas já era pronta para briga. Segurei o jogo até quando o berimbau chamou, ela não conseguiu fazer nada comigo.

Continuaram os jogos até completar uma hora e meio, para os políticos verem.

– Iê! gritou o Nô, tudo mundo bateu palmas, o políticos se aproximaram e cada um falou o seu pequeno discurso, e foram lá p’ra frente discutir com Tutú e Nô. A gente voltou a jogar. Depois soube que nesse dia Tutú conseguiu um gordo cheque que deu para fazer a reforma do salão, e a promessa que o prédio ia ficar só pra nós.

No entanto, a roda acabou também nesse dia como nos outros sábados. Fui logo no vestiário. As mulheres, que eram poucas, iam primeiro para depois deixá-lo para os homens. Quando cheguei, Nen se queixava com a irmã que o peito doia da benção que tomara. Eu vestia umla camiseta de alças. Na abertura de trás queimava as minhas costas. Já me tinham falado lá na frente no salão da marca de dedos de pé na minha pele.

– Eu fui jogar de comadre com você. Você foi quem me deu o chapéu de couro.

Elas ficaram caladas. Já tinha dado uns vacilos, mas acreditava que estas, por serem mais ou menos iguais a mim, eram para acreditar. Daí em diante não acreditei nem em velho nem em novo. A minha falsidade foi assim despertada – a custo de tapa na cara, tapa nas costas, de rasteira, e de um cipozinho que Nô guardava perto quando não jogava para bater na perna de quem vacilasse.

Aprendi a capoeira da maneira mais dura. Mesmo assim, via e sentia seu lado bonito. Admirava os capoeiras do meu tempo. Eram bons. Procurava sempre aprender mais. Era uma boa aluna, apesar do desprezo que eu recebia de Nô. Eu não perdia uma aula. Sempre lá, treinando, caindo. As meninas que apareciam para treinar –isso quando já estávamos na Carlos Lopes, quando a gente ainda estava naquele buraco, ninguém aparecia para treinar, mas isso foi já um tempo depois, a gente andou muito de deu em deu e veio a se fixar depois na Carlos Lopes– então as meninas se deretiam para o lado de Nô. Não sei em outros lugares; mas era comum moças se aproximarem do mestre ou de bons capoeiras para assim gozar de certos privilégios ou senão aprender mais, ter atenção especial e proteção. Nô era um tipo, com todos os capoeiras, ou a maioria, era um garanhão. Eu sempre o tratei com respeito, aluno-mestre e mestre-aluno. Para mim era um mestre e nunca pensei nem sequer em lançar meu olhar 43. Por isso o mestre me tratava com dureza. Não no jogo, era nas palavras, nos gestos. Eu ficava por muitas vezes magoada. Ele não dizia para as outras va p’ra roda e dê seu recado direito como dizia p'ra mim; e não era só por que eu era a mais velha. Ele só deixou de me tratar friamente quando eu comecei a namorar com Dinelson, contra-mestre número dois do salão, depois de um ano. Daí ele ficou maleável e até batia papo comigo.

Na academia depois de cinco, seis meses que a gente estava, tinha um teste, que era feito sem o aluno saber. Era pra testar a resistência, a ‘raça’, e se tinha mesmo aprendido alguma coisa naquele período. Se tinha feito bom proveito de alguma coisa’.

Um dia de roda, –a de sábado era a mais frequentada– inesperadamente, o iniciante, que já entrava na roda depois dos primeiros semanas do treino, mas sem ninguém apertar, entrava na roda; e neste dia o Mestre dava sinal para um aluno dos mais graduados, que ia comprar o jogo. Se o calouro não estivesse na roda, o graduado o convidava. Aí, fosse Braulino ou fosse João Miséria, o calouro passava pelo maior aperto, atacava, recebia, contra-atacava, pegava rasteiras, subia, descia, um tempo bastante prolongado; e ele mesmo não sabia que passava por um teste, um espécie de batismo privado. Só depois, as vezes no outro treino da semana seguinte, que o mestre falava do desempenho daquele dia, se foi bom ou se foi mal. E é assim que era autorizado a usar a faixa, que ele dava. Aconteceu alguns desistirem depois daquele teste, e nunca mais voltar sem nem saber o que o mestre ia falar. Assim do Val. Este foi o último dia que ele veio treinar, depois de uns seis meses. Val sempre foi muito delicado. Sofreu de asma muito tempo. Eu incentivava ele para entrar na capoeira, eu já tinha uns dois anos no treino e como a gente era como irmãos ele acabou indo. Depois ele me falou que não agüentava. Mas não impediu ele sentar praça na polícia militar. Quando eu saí da Bahia, ele era tenente, preparando para o exame de capitão. Era muito inteligente. Era um menino negro retinto, magro alto. Ele era o orgulho de uma família pobre da invasão da Mangueira. Dos sete anos aos doze anos, foi minha Mãe que criou, pra tirar a asma dele. Assim que conheci ele. A gente era muito amigos. Antes de entrar na polícia, ele tentou um concurso do Ministério da Fazenda, passou em primeiro lugar; até eu li no Diário Oficial. Mas ele nunca foi convocado. Aí se disgostou. Apesar das escusas que inventaram para ele, ele sabia que era barrado por ser negro. Por isso, tive de entrar na Escola de Polícia.

Ele era o braço forte da família ; até tinha um irmão marginal, mais velho do que ele, conhecido como o Nego Dinho, até no jornal, que foi fuzilado na porta de casa e não morreu. Depois de cumprido três anos na detenção da Pedra Preta, ele ficou completamente paralítico, e Val cuidou dele.

O desafio do Grande

Um dos alunos preferidos do Nô, Antônio Cerqueira, chamado de Grande pela altura, formado depois de quatro anos, considerou que, com a forma física e a experiença, já superava o seu mestre. E eme já tinha um nome na Mangueira, em Itapagipe. Ele era conhecido e respeitado. Na academia, os alunos novos todos tinham medo dele, inclusive eu. Dos bons, quem emendava os bigodes com ele, era o Sergipe, que era a metade do tamanho dele, mas era terrível. Era o terceiro contramestre, o primeiro sendo o próprio Grande, o segundo Dinelson, e o quarto Golias, que era o único branco da turma, e que p’ra gente era grã-fina, porque era de classe média-alta, do Bonfim.

Grande era um capoeira muito especial. Nunca vi outro igual. Tinha uma ginga fantástica. Ficava tão pequeno no chão ! Além dos movimentos nunca ser em vão, tinha uma maneira de revirar o olho, parecendo o Cão, que assustava, principalmente a gente nova. Assustava, mas impunhava respeito para qualquer que entrasse na academia. Em verdade, era um dos leões-de-chácara do salão. Jogava só quando a coisa ficava muito preta. Aí demostrava que era um capoeirista muito eficiente. Entrava e resolvia o caso logo. O jogo só demorava quando encontrava uma cobra como ele, como no caso do Sergipe, que fora aluno de Caiçara, e entrou depois na academia de Nô fugindo de alguns problemas, e Nô, Tutú e todo mundo o acolheram, tanto que se deu bem e que quando Nô recebeu um convite para ir ensinar em Curitiba, o mandou no lugar. No Paraná, Sergipe construiú uma família e nunca esqueceu Nô.

Nesse tempo, a gente estava treinando de favor no barracão do pai-de-santo seu Dudú, na Mangueira.

Grande desafiou Nô um sábado, a frente de todo mundo da academia e de visitas. Nô estava armando os berimbaus. Grande entrou, camisa no ombro, com o seu andar gingado de sempre, parou diante do mestre e falou :

– E aí, Nô. Hoje é eu ou você aqui.

Nô olhou para ele interrogativo. O Grande costumava brincar e não o levou ao sério.

– O que é que você falou mermo, bicho?
– É aquilo que você ouviu. É você ou eu aqui hoje.

Aí Nô largou o berimbau. Todo mundo tinha escutado. Não sei como seria hoje, mas naquele tempo ele tinha que aceitar. Nô usava uma faixa preta em sinal que era o mestre. Tirou-a, caminhou em direçao ao atabaque, colocou-la ao redor do tambor e disse :

– A gente vai jogar. Se você ganhar de mim, eu vou embora. Agora se você perder, é você que vai embora.

Grande era mais alto e mais novo que o Nô, com uns 23 anos contra os 35 do mestre. Era forte de corpo, tinha aquela ginga dele, e na roda de capoeira era muito falso. Fora da roda era amigo leal, mas na capoeira não conhecia mais ninguém, nem fraco, nem forte. Nô sempre foi tranqüilo, e era muito bom. Foi para a roda, hoje disse que sabia que venceria. Sei que eu e outros duvidámos que Nô podia ganhar. Nô era bom de capoeira, mas nós nunca o vimos nos quebra-jereba em que viamos o Grande, Sergipe, João Miséria, Ferra-Bráz e outros. A gente tinha medo que Grande ganhasse, ficasse dono da academia. Aí ele ia ficar cheio de asa, pior que antes, ia bater em tudo mundo, e nós fraquinhos ia apanhar pior que tudo mundo, ou ir embora.

Tutú chegou para tocar o atabaque. Todos os presentes se aprontaram para a roda. Nô estava muito invocado. Nesse tempo dava muito para ver, pelo jeito de sentar nas pernas na entrada da roda. João e Dinelson começaram a tocar o berimbau, o e jogo começou, sem ladainha, sem canto nem nada. A coisa ficou pesada. A expectativa era grande. Quem tocava, tocava, os demais permaneciam silenciosos.

Havia momentos de superioridade de um sobre outro, e depois virava a vantagem. Nô cozinhou o aluno até dar uma rasteira fantástica que pegou nas duas pernas e mandou o Grande com as nádegas no chão, e completou com movimento para a cabeça. Grande com raiva tentou partir para murros, mas os outros impediram. João queria brigar com Grande. Rolou a discussão. Grande saiu. Mesmo ganhando, Nô ficou muito nervoso; a roda não proceguiu nesse dia. Não tinha clima mais não.

Grande, desgostoso, ainda tentou se vingar uma vez ou outra, junto com Elias e Valcir, dois outros ex-alunos, esperando ele nas esquinas, mas nunca conseguiram. Nô era bom de capoeira e também não andava só. Tinha com ele Ferra-Bráz, que tinha esse apelido por causa de sua chapa que parecia colocação de ferro de marcar, João Miséria, que mais tarde largou a capoeira para ser crente, Zéca o cotó, que não tinha braço esquerda e ainda era um perigo, Dinelson que era amigo dele e ficou no lugar dele depois que ele foi embora para a Boca do Rio. O Grande acabou desistindo, tentou fazer um trabalho sozinho, mas o trabalho não vingou, a não ser um aluno chamado Pelé, muito bom. Começou a beber, e o capoeira que ele foi deixou de ser.

Ainda passava na academia, mas sempre quando Nô não estava. Tutú o deixava entrar.

Depois saiu da Massaranduba, foi morar no subúrbio. Dinelson foi convidado por ele para ir no batizado dele. No lugar não tinha capoeira graduado; por isso pediram para Grande dirigir o grupo, dar orientação. Nos fomos, o batizado rolou, vi ele jogar e pra mim foi uma decepção. Não tinha nada daquele tempo.

Meu aprendizado na academia continuou até depois que me formei e durou até antes de eu sair de Salvador. Eu nunca parei de aprender. Quando eu saiu de Coutos para voltar para Salvador, voltei à tomar aulas, junto com a minha filha Clívia. Meu professor era Pelé. Ele tinha sido aluno de Um-por-um, capoeirista de rua na Mangueira. Ele dava aulas à noite na academia Orixas da Bahia com um grupo de uns seis alunos, que eram capoeiristas que tinham parado por algum motivo, e estavam retornando. Era o meu caso, no sentido que dava aulas, mas tinha deixado de tomar aulas.

Sempre 'tava no meio de onde tinha aula, eu sempre estava lá escutando os mais entendidos.

Me dediquei bastante à capoeira. Por dez anos fez alunos e bom trabalho, mesmo estando na sombra do meu ex-marido. Mas tenho consciência da seriedade que levava à que fazia. A capoeira foi uma coisa muito forte na minha vida, a corda que sempre me segurou quando estava perto de cair no buraco, um sustentáculo muito importante que mudou bastante a minha natureza violenta, apesar de minha Mãe não ver com bons olhos a capoeira na minha vida. Para ela como para muita gente na época, a capoeira era sinónimo de malandro preto vagabundo. Quando se zangava comigo, ia até falar "Ela já não presta, ainda mais agora que é capoeirista e namorando com capoeirista não vai dar p'ra nada!" Eu ficava com uma raiva. Tanto não gostava que parou de pagar para a academia, tudo para eu desistir. Eu não sei porque ela nunca me tirou. Ela tinha poder p'ra me tirar. Fiquei triste quando ela não pagou, chorando, pedindo p'ra Nô e p'ra Tutú. Tutú era o presidente do grupo. Ele falou p'ra mim que não precisava ficar chorando, que poderia ficar na academia sem pagar. Eu continuava indo nos treinos, na semana e nos finais de semana. Foi na capoeira também que eu conheci o meu ex-marido, que muito me ajudou no aprendizado. Logo me tornei capoeira, viramos rivais nas rodas, tanto que Nô nós proíbiu de jogar juntos. Eu treinava bastante, me dedicava muito à capoeira e ao namoro compromissado com Dinelson. Também foi coisa que não foi bem vista por minha mãe. Ela achava que capoeirista não era coisa boa. Mas não liguei. Nosso namoro prosseguiu, teve festa de noivado com muitos capoeiras presentes. Foi uma farra. Agora a coisa era séria, apesar das brigas, muito ciume, as coisas iam. As vezes eu presentia que aquilo não ia dar certo. Ao mesmo tempo achava que com o tempo tudo se acertava. Eramos muito jovens. Sempre achei que faltava alguma coisa no meu sentimento em relação a ele; mas não sabia o que era. Daí, noivado, à casamento, e a capoeira sempre presente na minha vida.


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