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Association de capoeira PALMARES de Paris.

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por Pol Briand
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revisado em 11 setembro 2007

Os documentos históricos da capoeira

Procuramos nos rastros do passado algo que melhore a nossa visão do jogo de capoeira. Mas os capoeiristas, sempre flexíveis, adaptaram o que faziam ao seu tempo. Para entender os documentos, é preciso O objeto da nossa pesquisa, o , adapta-se e muda no decorrer do tempo. Para evitar as falsas pistas, as conecções arbitrárias, as confusões ridículas, é preciso conservar viva uma clara consciença do momento descrito pelo documento. O instrumento desta consciença é a divisão da documentação em períodos.

  1. Quais documentos?
  2. Porque dividir em períodos?
  3. Apresentação dos períodos.
  4. Documentos.

Quais documentos

Objetivos

Procuramos na história complementos aos ensinos que temos recolhidos dos nossos mestres e de outros capoeiristas, com o objetivo de

  1. distinguir, nos usos, nas técnicas e nos ensinos, o que é fundamental do que é contingente, o que passa e o que fica;
  2. identificar aquilo que aplica-se a várias artes marciais ou esportes ou danças de combate e o que é particular do jogo de capoeira;

    [ Este objetivo é um produto da nossa época. Outrora a capoeira pude representar no Brasil toda e qualquer forma de luta corporal e defesa pessoal, e seus praticantes absorver todas as técnicas de prática semelhantes de outros países, tomando emprestado sem que isso pusse em questão a sua identidade, que sempre vinha confirmada pelo meio social relativamente limitado em que banhavam. Agora muitas práticas estão presentes nos mesmo teritório e identificam-se pelas suas diferenças. ]

  3. recuperar técnicas e modos de organização abandonados em alguma fase precedente, que poderiam de novo satisfazer necessidades.

Capoeiragem e jogo de capoeira

Parece-nós necessário distinguir

o capoeira,
termo que designe, nos meados do século dezenove, o indivíduo que exerce na rua violenças que os seus contemporâneos não explicam por um motivo evidente como o roubo, a extorsão, a vingança o o ciúme, e
o jogo de capoeira,
que descreveram viajantes do início do mesmo século, no qual pessoas que não são necessariamente capoeiras testam a sua capacidade em esquivar a violência, dentro de um espaço e um tempo mais ou menos bem delimitados por sinais convencionais como por exemplo a música, ou exclamações cujo sentido é conhecido de todos.

Para jogar, os participantes adotam temporariamente o comportamento antisocial dos indíviduos capoeiras.

Folguedo e prova de aptidão a sobreviver num espaço perigoso, o jogo de capoeira é aberto aos indivíduos capoeiras na medida em que aceitam os limites impostas pela coletividade temporária dos jogadores presentes.

Entende-se bem que tanto um como o outro participam do jogo. Existe um determinado prazer lúdico, particularmente entre os que não gozam dos benefícios da sociedade, em perturbar o seu funcionamento e eventualmente confrontar as foças da ordem. Aquilo se encontra em muitas sociedades que tem diferenças sociais, particularmente na ocasião das festas, que delimitam implicitamente um espaço de jogo. Mas no que se chama de jogo de capoeira, os dois jogadores consitam ao confronto, e forma-se ao redor deles uma roda que os encoraja, e possivelmente canta e bate palmas; embora a atividade dos capoeiras evoca transeunte inocentes que fogem ou caiem, vítimas de agressão. Os observadores usam de uma frase ou da outra, para um determinado evento, de acordo com a sua participação ao negócio e seguindo os seus próprios critérios; mas a expressão jogo de capoeira sempre aponta um grau de participação dos presentes.

O grau de consenso pode variar no decorrer de um mesmo evento. Uma ação que alguns acham um abuso, e o conflito vira a vera, significando que os contendores deixam de controlar o seu nível de agressividade (Rugendas 1835). Seja por que a ética do jogo exige que sempre se relembre este perigo, seja que estas perdas de controle coletivo sejam freqüentes, esta eventualidade faz parte da maior parte das relações do jogo de capoeira, a não ser as das autoridades da época moderna que tentam organiza-lo em esporte combativo submetido à um conjunto de regras.

Se procura-se classar os eventos de acordo com a participação ativa dos presentes, o que procuramos encontra-se nitidamente do lado da forte participação. Em efeito, esta significa um acordo sobre os limites a expressão da discordia que o jogo de capoeira institue. De acordo com uma das nossas hipóteses, este consenso local renegocia-se em cada jogo. Nada obriga ninguém a particicipar, nem ao jogo, nem à roda que o cerca. Se uma capoeira não agrada, não se atende, se evita. As fórmulas que não reunem um número suficientes de participantes se esgotam por si mesmo. Não é o mesmo com as perturbações que sofrem-se, sem querer participar, mesmo que se importa-se a capacidade própria de se livrar delas sem danos. A transmissão e a atualização dos valores, das formas de controle social e das táticas de jogo, inclusive as ténicas corporais, acontece principalmente em confrontos consensuais.

A música institue e organiza esta participação, transformando a assistência do jogo em coro dirigido por uma pessoa e geralmente por um grupo, enquanto afirma a particularidade do espaço e do tempo do jogo.

Uso pejorativo

Até época recente, o termo capoeira tinha um sentido muito pejorativo. Embora tivesse outros termos portugueses para tal fim, serviu para designar as pessoas que viviam por meios incertos, usando da violência para controlar um território, para extorquir dinheiro ou mantimentos, para protegir negócios ilícitos como os dos jogos de dinheiro, do contrabando ou da prostituição, para servir em troca de dinheiro ou de favores os fins privados ou os objetivos políticos de padrões poderosos. Em conseqüência, serviu para denegrir e insultar adversários.

Este uso apenas extende o sentido do termo, tal que o temos definido, sem por em questão nossos reparos sobre o jogo de capoeira. Não tem sinal que este tenha sido exclusivo das categorias de marginais que acabamos de citar, nem que tenham eles sido excluído dele.

Base de documentação

Deviação sistemática da documentação histórica

Os eventos reais podem comportar todos os graus de participação, mas não tem todos um chance igual de gerar um arquivo disponível para o estudo histórico.

Colocamos-nos perto do polo do jogo: música, risadas, cachaça, todo mundo participa na medida em que quer, ora somente cantando e batendo palmas, ora lutando num respeito dos limites admitidos por todos; é talvez um momento de um samba ou batuque que pude muito bem começar depois de função religiosa, que continua com música e dança, etc., e que vai continuar ainda, sem feridas graves, sem queixas, e a festa não incomoda demasiadamente os vizinhos. Para ficar um documento escrito, precisa-se de um testemunha muito particular, próximo de que hoje se chama de etnóloga; nem tem a ação dramática para alimentar a ação de um romance naturalista. No momento que uma tal descrição é conhecida, o evento pode reproduzir mil vezes, não dá lugar à novas publicações: é conhecido. Somente o afastamento no tempo ou mudanças de ponto de vista produzam novas descrições.

Vamos para a outra extremidade do eixo, pulando todas as posições intermediárias: encontramos um pequeno número de indivíduos no meio de pessoas que não participam, apavoradas; vítimas feridas ou mortas; danos materiais. Cada vez que acontece a perturbação, seguem protestos, qui inquietam e mobilizam jornalistas e autoridades, que produzem uma massa de arquivos. Estas relações, via de regra, trazem apenas muito pouca informação positiva, já que o seu objeto único é denunciar ou reprimir. Mesmo se a proibição de fato do jogo de capoeira aproxima todas as práticas numa repressão comum, os arquivos privilegiam a atividade que divisa e perturba, ao detrimento das informações sobre as práticas consensuais e as relações comunautárias.

Num contexto de repressão, os mais hábis vivem escondidos.

Mesmo se a informação útil se encontra em concentrações desiguais, devemos procurar uma larga base de documentação. A participação comunautária é graduada, do que foge da cena àquele que entra para jogar, passando pelos que assistem de longe, se aproximam do barulho, comentam, cantam e batem palmas, sem todavia se apresentar para lutar, os que dirigem a música. Freqüentemente, as descrições deixam uma noção muito imperfeita da participaç˜o dos presentes, pois o autor, hóstil ou favorável, tende a omitir os aspeitos mais difícis a receber para o seu público. É impossível definir um critério para incluir ou excluir uma descrição na base de documentação; menos ainda pode-se discriminar uma categoria de fontes.

Precisamos portanto examinar todos os documentos que comportam o termo capoeira, já para estabelecer, em cada época e lugar, quem o usa, em qual sentido, e quais as associações simbólicas que o ligam aos corpos individuais e ao corpo social.

Outros nomes do jogo de capoeira

Os povos mostram-se particularmente inventivos para designar aquilo que é de vez repreensível e agradável. Ademais, existem tradições locais. Os praticantes do jogo podem ter preferir outros nomes.

Estas considerações nos impedem de reter o termo capoeira como critério de seleção dos documentos. Precisamos examinar todo que interessa a vida popular, com atenção particular para os autores que propõem uma mudança de ponto de vista, que são susceptíveis de procurar, na descrição de fatos sociais, argumentos em apoio às suas teses.

Comparações

Os jogos de combate, sejam eles praticados entre camaradas ou contra um adversário habitual, como os moradores de um bairro vizinho, ou institucional, como a polícia, são muito comuns no mundo. Comparações permitirão distinguir melhor o que faz a originalidade do jogo de capoeira em relação ao que se encontra em outros paises, do que pertence à regularidades gerais.

Contexto social

Se tomamos como definição do objeto da nossa pesquisa uma luta sem objetivo utilitário imediato, incorporáremos provavelmente todos os fatos sociais que nós interessam. Ainda precisamos, porém, determinar os elementos do contexto, entre os quais figuram em primeiro lugar a atitude dos diferentes setores da sociedade frente à violença, ao exercício corporal e à coragem física. Mais largamente, parece-nos importante para a compreensão do jogo de capoeira de se informar, para cada época, sobre o estado social dos lugares onde acontece.

A história da capoeira desemboca assim sobre a história social do Brasil. Embora o assunto certamente nós interessa, concentraremos-nos nos saberes e valores encarnados nos jogadores de capoeira, e deixaremos aquela pesquisa para os historiadores proficionais.

Precauções

Uma leitura orientada demais por nosso interesse pelo jogo de capoeira corre o risco de levar-nós à conclusões apressadas e à construção de mitos adaptados, conscientemente ou não, à idéia que a nossa própria maneira de praticar gera em nós. Se for consciente, não traz problemas ;  senão aquela tendância geral em acabar acreditando em suas próprias invenções. Talvez não seja muito razoável procurar de vez exprimir dramatica e poeticamente uma sabedoria, e produzir, na base de depoimentos examinados com rigor, asserções explícitas que outros poderão verificar e discutir.

Se queremos, pelo estudo da história, enfraquecer os nossos preconceitos para ficar mais capazes de aprender o que o jogo de capoeira pode nos ensinar, precisamos debruçar-nos sobre os detalhes concretos. Os pormenores, ao refletir, indicam a natureza das relações sociais.

As relações sociais refletem-se entre outras coisas na escolha de palavras, nos exageros e diminuições jocosas, nas fórmulas convencionais, que só podem deteitar-se e entender com um cuidado extremo para com o léxico, baseado em documentos contemporâneos, já que o sentido das palavras varia com o tempo, e que estes podem ganhar ou perder significados ou associações essenciais para a compreensão de um texto. As migrações, voluntárias ou forçadas como no caso da escravidão, provocam encontros de idiomas, equívocos entre o de origem e o de chegada. Depois de uma ou duas gerações, o sentido original de palavras oriunda de uma língua que não se usa mais perde-se inteiramente. Fica difícil entender uma piada ou trocadilha, o nome de uma coisa, o apelido de uma pessoa.

Nestas condições, em vez de argumentar em favor do uso que temos do jogo de capoeira; colocaremos na praça pública o que se precisa para aproveitar dos ensinos do passado. Os capoeiristas poderão combinar estes recursos à transmissão oral, gestual, musical, em uma palavra só, prática de que são o ponto final para responder à circunstâncias do presente. As comunidades de capoeiristas aceitarão, adotarão ou rejeitarão estas respostas.

Porque dividir em períodos

O objeto da nossa pequisa, o jogo de capoeira adapta-se e responde às transformações da sociedade. A visão do mundo dos escritores e artistas evolue; os interesses do público ao qual endereçam-se também mudam.

A expansão da cidade absorveu um lugar que era no campo. Um ofício não serve mais, e os que o praticavam precisam encontrar outra ocupação. Suposições comuns, em quais baseam-se as relações entre as pessoas, espalham-se ou abalam-se; os valores de troca flutuam; a seguir, as instituições evoluem. As palavras mudam, e também os seus usos. Coisas que deixavam indiferente adequirem associações emocionantes; termos que despertavam paixões caiem em desuso ou nutrem apenas saudades. Para evocar coisas proíbidas ou reprovadas, ou para estreitar os laços entre as pessoas que comunicam usando um código de uso privado, a gente troca a palavra exata por outra, que designa um objeto habitualmente relacionado com aquilo que não se quer nomear. Este termo, com o decorrer do tempo, pode passar por termo próprio, não figurativo. Ficando explícito demais, uma nova metonimia virá substituí-lo.

Entender tudo isso, é fazer um trabalho de historiador que ultrapassa os objetivos que podemos nos fixar aqui. Mas para, ao menos, evitar as falsas pistas, as aproximações arbitrárias, as confusões ridículas, as explicações fantasiosas, ingênuas ou demasiamente ingeniosas, precisa-se guardar uma consciença clara do momento descrito pelo documento. O instrumento desta consciença é a repartição da documentação em períodos.

O tempo de um período

Até agora, o efeito dos textos tem sido marginal no jogo de capoeira e na sua adaptação ao seu ambiente. Alguns mestres puderam recorrer a documentos para fortalecer a sua interpretação do jogo. Estas explicações vêm apoiar novas formas de um saber prático, que respondem as mudanças de uma situação ou favorecem a defesa de um interesse. Mas os escritos influenciaram o jogo muito menos do que os discos orientaram a música de capoeira. A documentação não tem força de lei. Apesar da sua verdade encontrar-se em gestos e não em palavras, a capoeira tem as caraterísticas de uma tradição oral. Cada geração basea o seu trabalho sobre os conceitos vigentes no seu tempo. A consulta dos arquivos pode ajudar a de livrar do peso do presente, e a recuperar um sentimento da extensão dos possíveis, mas o estudo dos documentos não pode, por si mesmo, indicar o jeito de fazer que cabe ao momento.

A mais valiosa parte da informação, escrita ou oral, sobre o jogo de capoeira, vem das lembranças dos mais antigos. Quem já viu a trajetória serpentina do jogo de capoeira mudar de rumo pode, através de um reparo ou de um caso, sugerir a abertura de possibilidades fora do que pratica-se corriqueiramente. Alguns o fazem com muita arte. Um mestre é quem fala o que precisa no ouvido pronto para escutar. Nós não podemos afirmar que a saudade fizesse parte do pensamento dos capoeiristas, mas, com freqüença, este pensamento toma a forma da lembrança de uma época acabada. Acreditamos que os momentos de realização são raros, e que destacam-se como pedaços brilhantes na superfícia cinzenta do presente. Qual que seja a maneira dos antigos para transmitir o seu saber, a sua memória pode remontar no máximo a uns setenta anos no passado. Além, tratamos-nos as estórias como parte da lenda da capoeira, um ensino um pouco diferente do da história. Aquém, devemos achar um fato estabelecido quando um número suficiente de testimunhas independantes o mencionam.

Resolvemos dividir a breve história dos documentos sobre a capoeira em períodos de aproximadamente a metade deste tempo. Não foi difícil encontrar, na história do Brasil, eventos importantes para as comunidades a que pertenciam os capoeiras (ou capoeiristas) cada vinte e cinco a trinta e cinco anos.

Momentos de mudança

Em determinados momentos os princícpios com quais entendemos o nosso ambiente mudam.

Determinadas pessoas interpretam usos antigos de tal jeito, que constroem práticas ate então desconhecidas.

Reações àquelas inovaçoes vem restringir o espaço que as novas práticas ganharam para os seus promodores.

Nestas lutas, tão os partidarios do novo como os conservadores freqüentemente negam as mudanças que fizeram em práticas antigas, e fazem da sua atividade os primeiros, e dos limites que há de colocar nela os segundos, a continuação de um passado imemorial, naquilo chamado de invenção da tradição.

Tais momentos existiram (no Rio de Janeiro) na época da Independência do Brasil, na da abdicação de d. Pedro I, na da guerra do Paraguai, na queda da escravatura e do Império, na dos tumultos que puseram fim à República Velha; no final dos anos 1960 apesar da ditatura militar, e assaz nitidamente, a partir dos anos 1990.

São, em muitos casos, momentos de instabilidade e de conflitos, nas quais se possibilitam e se necessitam novas práticas ou reformas das antigas.

Temos escolhido os limites dos nossos períodos baseando-nós principalmente nos textos que citamos.

Apresentação dos períodos.

Antes de 1808: procurando rastros.

Nada conhecemos do jogo de capoeira deste tempo colonial.

Sobre a capoeira propriamente, os pesquisadores não fornecem referências contemporâneas, com exceção de um registro de prisão por capoeira, que deu lugar a ume pequeno processo encerrado em 1789.

Este documento abre uma longa série de documentos policiais e judiciários que tratam dos capoeiras como problema de ordem pública, mas entre os quais, nas centenas de páginas de inscrições de escrivão, de relatórios, de correspondâncias e de projetos de lei, só se encontram, do nosso conhecimento, raras alusões à prática do jogo de capoeira.

Escritores nacionalistas, a partir de 1930, tem propagado uma interpretação da capoeira que faz dela um símbolo da identidade brasileira. Retocaram crónicas e obras literários antigos, acrescendo descrições da capoeira largamente posteriores, em capítulos de livros sobre o “Rio no tempo dos Vice-Reis”. Estes documentos nos informam sobre o ponto de vista da Direção da Ideologia e Propaganda do tempo de Getúlio (1938-1945), não sobre a capoeiragem tal que pude existir antes da chegada da Corte em 1808, e muito menos ainda sobre as formas primitivas do jogo de capoeira.

Achamos muito útis as pesquisas dos historiadores sobre a vida social no Brasil durante as diversas fases da época colonial, sobre o tráfico negreiro de ambos os lados do Atlântico, sobre as comunidades de desertores quilombolas, sobre as regiões da África de onde os traficantes retiraram os escravos.

Entretanto, duvidamos que os arquivos coloniais do Brasil pudessem revelar muitos detalhes sobre a parte a mais humilde e desprezada da população, os escravos, entre os quais, de acordo com os documentos do período seguinte, desenvolveu-se o jogo de capoeira. A História mostra abondantemente que em todas partes, as atividades discretas, escondidas, independantes e decentralizadas resitam melhor ao controle dos senhores. Estas atividades também resistem aos esforços dos historiadores.

Quanto aos relatórios dos missionários e exploradores da África, são útis para nos figurar uma determinada forma de pensamento que o exercício do jogo de capoeira poderia ter transmitido até nós.

1808-1831: primeiras notícias.

Em 1808, a Corte real de Portugal desloca-se no Brasil, fugindo da invasão do país pelas tropas francesas. A presença da Corta leva as restrições administrativas ao desenvolvimento de uma colônia: o país, que era proíbido aos estrangeiros, agora lhes é aberto; em 1821 as revindicações constitucionais dos Portugueses da Europa causam a volta do rei João VI a Lisboa, mas o seu filho Pedro, que ficou no Brasil, consegue controlar o país apenas proclamando a Independância em 1822. Ele deixa o Brasil em 1831, após a morte de João VI, para cuidar da successão européia, não tendo conseguido reinar de vez na metrópole e na antiga colônia; Brasileiros chegam no poder.

A curiosidade européia para um país que ficara muitos anos fechado sucita bom número de trabalhos científicos e de relatos de viagem logo depois do fim da guerra na Europa em 1815. Alguns destes viajantes interessam-se aos costumes de um país dividido em três castas, a dos Brasileiros, brancos nascidos no Brasil, dos Índios, “selvagens” ou “civilizados” e a dos Negros escravos “de nação”, isto é, Africanos de nascimento, ou “crioulos”, nascidos no Brasil. Os poucos Negros livres e os numerosos Mulatos formam exeções que perturbam esta classificação familiar na América colonial, atraindo assim a atenção dos viajantes. Sobre a descrição dos costumes dos Brasileiros e Negros estende-se a sombra da polémica ao redor da escravidão, que uma correnteza de opinião oriundo da Inglaterra procura abolir, contra a vontade dos fazendeiros e seus aliados. As relações de viagem no Brasil são numerosas, mais somente dois artistas, vindos de paises onde a idéia que a verdadeira identidade dos povos não encontra-se nas costumes dos elites sempre cosmopolitas, mas nas do povo inculto, deixaram rastros do jogo de capoeira, o alemão Moritz Rugendas e o americano Augustus Earle, criado na Inglaterra, onde o box e outras formas de luta eram um assunto de interesse legítimo. Estes dois depoimentos, imagens e texto, sobre o jogo de capoeira são as duas únicas descrições de que temos conhecimentos até 1886.

Os Brasileiros, quando escrevem, não entregam muita notícia dos seus escravos, e menos ainda daquela parte da vida dos seus subordinados que não interesse a produção, onde eles não tem lugar algum. Os divertimentos dos negros, principalmente música e dança, são proíbidos na cidade. Além de jogar capoeira, os documentos policiais e judiciários mencionam os negros capoeiras, o que designa provavelmente uma atitude de insubordinação e resistência à autoridade. O estudo destes registros da polícia e documentos, aliás interessante, informa mais sobre a evolução das elites brasileiras do que sobre o jogo ou as técnicas de luta dos Negros.

1831-1865: nada.

Após a partida forçada do imperador Pedro I em 1831, o seu filho Pedro, nascido em 1825, permanece no Brasil, e uma Regência composta de Brasileiros assume o poder. de 1831 a 1840, os governos tentam promover os direitos da pessoa. Ma o sistema social brasileiro tem alguma coisa de feodal. Em todos os níveis da sociedade, os poderosos são mais fortes do que as leis, e usam do seu poder para favorecer os seus seguidores, e eventualmente os defender contra a lei. O sistema liberal fracassa, pois os poderes provinciais entram em conflito com a capital, enquanto os Brasileiros que organizam o Estado, formados em universidades européias e sobretudo no Portugal, procuram preservar a unidade da América portuguesa. A partir de 1840, adoptam um sistema menos cuidadoso da legalidade. No novo sistema político, o jovem imperador dom Pedro II assume o “poder moderador”, que fixa teoricamente limites aos poderes legislativo, executivo e judiciário. Em prática, a vida social no Brasil continua sendo dependante do apadrinhamento, e o do Imperador, provavelmente convendido dos ideais meritocráticos européias, permete aos mais hábis dos Negros e Mulatos de valer-se da sua instrução para criar para si um lugar na sociedade brasileira. Não se pode entender as pequenas guerras dos campos, nem o foncionamento da instituição judiciária, sem guardar na mente que no Brasil imperial, a lei só é o hábito, muito mole, de um sistema em que o que um indivíduo pode fazer ou não fazer depende da proteção de uma pessoa.

Em 1865 começa a guerra do Paraguai. O recrutamento de Negros e mestiços, que vão virar companheiros de armas dos Brancos durante os combates, vai abalar as relações raciais no Brasil.

O período 1831-1865 praticamente não entrega informação alguma sobre o jogo de capoeira.

Na Europa, o interesse sucitado pelo Brasil caiu. As autoridades brasileiras mandam publicar obras destinadas a estimular a imigração européia; os seus autores pescam a sua informação no Univers Pittoresque: le Brésil do brasilianista Ferdinand Denis, de 1837. Os escritores se empregam mais em fornecer dados sobre a economia brasileira, a administração e a legislação, do que sobre os Brasileiros, o pequeno povo e os escravos.

No Rio de Janeiro, a crónica policial da repressão às atividades independantes dos Negros e do vigilância dos pobres na cidade continua, ainda sem detalhes útis sobre o jogo de capoeira. Os historiadores que estudem estes arquivos com a ambição exclusiva de documentar a capoeira são inevitavelmente fadados à construção mitológica. Ainda tem para o se estudar uma massa considerável de arquivos, o da imprensa, particularmente as publicações populares infelizmente nem sempre bem conservadas, e as fontes comuns da história podendo servir ao aprofundamento e à crítica dos trabalhos de história social publicados desde 1930.

1865-1893 : os capoeiras, um problema do Rio de Janeiro.

Durante a guerra do Paraguay (1865--1870), a atenção geral evidentemente não dirige-se para os jogos e as lutas.

Nos campos de batalha, os combatantes criaram entre eles, e também com os oficiais, laços de solidaridade. De volta à vida civil, os veteranos, entre os quais as crónicas deixam entender que tem bom número de capoeiras, participam na pressão política que desemboca na primeira lei de emancipação dos escravos, chamada do “Ventre Livre”, no 28 de setembro de 1870, em atmosfera de grande rebuliço popular.

Depois desta vitória, a agitação cai, enquanto a política de encorajamento à imigração européia torna a situação dos Brasileiros pobres mais precária ainda. Esta imigração fortemente masculina cria uma disarmonia dos sexos que contribue em aumentar as tensões sociais. Na segunda metade dos anos 1870, as autoridades do Rio de Janeiro manifestam fortemente a sua preocupação da existença e do número dos capoeiras, estes desordeiros que praticam entre si e sobre os transeuntes violências que parecem gratuitas. Os documentos policiais prolongam-se em relatórios ministeriais, em projetos de lei e em discussões parlamentares. Os jornais, que tem proliferado e començam a sua mudança de órgões de opinião política para instrumentos de informação, mencionam agressões e reclamam medidas. O afluxo de imigrantes européios, principalmente portugueses, tem profundamente mudado o sentido do termo capoeira, que não se refere mais nitidamente aos Negros.

De 1884 au 13 de Maio de 1888, a campanha para a abolição da escravidão desenvolve-se nas províncias do Brasil. No Ceará, que declara a abolição já em 1884, na cidade de Campos (província do Rio), no porto de Santos e no resto da província de São Paulo, esta agitação tem um caráter revolucionário: os abolicionistas exigem a aplicação das leis favoráveis aos Africanos e aos escravos em geral, e no mesmo tempo desrespeitam as leis escravistas, enquanto o Exército nega a sua intervenção contra eles. Mesmo quando tem lutas corporais, nunca a imprensa nem a polícia usam o termo capoeira para estas violências de que reconhece-se a causa. Também não chamaram de capoeiras os amotinados que protestavam contra o aumento do preço dos transportes coletivos em 1880 (Revolta do Vintém); mas o termo aparece na descrição das desordens, muito menos massiços, que aconteceram depois do assassinato cometido por um militar em pleno dia e a frente de um posto de polícia, do diretor do jornal popular O Corsário, Apulchro de Castro, em 1882. Aparecerá cada vez com mais freqüença, no decorrer dos anos, para disqualificar os auxiliares de polícia empregados para lutar contra os republicanos. Parece também fora de dúvida que políticos conservadores usaram bandos de marginais para impor o voto aos eleitores; o termo capoeira também servia para condenar estas atividades.

Em 13 de maio 1888, uma lei aboli a escravidão sem indenização nem para os senhores, nem para as vítimas da escravização, mesmo aqueles cuja servidão teria sido reconhecida ilegal seguindo as leis anteriores. O governo não toma medida alguma para assegurar o futuro dos libertos. Os ex-donos entram no Partido Republicano, que ficara dividido sobre a Abolição, exceto em algumas localidades como Santos, esperando obter compensações.

Ex-abolicionistas do Rio de Janeiro e possivelmente de outras cidades formam uma Guarda Negra, sociedade secreta para a defesa do Império, e, implicitamente, da Abolição da escravidão, por todos os meios necessários. Em 30 de dezembro de 1888, o Clube Republicano chama a uma reunião pública na Sociedade Francesa de Ginástica na Travessa da Barreira, no Rio. Os participantes pertencem todos à “fina flor da sociedade” (ler “Brancos”). Eles tem levado uma grande quantidade de armas de fogo com munição em previsão do ataque de passeata hóstil. Quando aparece, é recebida a tiros de revólver, disparando centenas de balas sobre a multidão, sem intervenção da polícia. Como conhecem os amigos dos inimigos? É fácil: aos gritos de apoio à monarquia que sobem, ao seu comportamento turbulento, mas, sobretudo, ao seu tipo físico e a sua roupa. Entre os republicanos, só tem alguns feridos. Para encobrir esta escalada na violência cometida pela “elite”, a imprensa, sobretudo republicana, usará o termo capoeiras para estigmatizar o monarquismo popular.

Os republicanos, que não deixaram de apelar, durante o ano 1889, para a violência popular contra o Império, de fato tem enfrentado-la, afirmando que era sucitada pelos seus adversários e organizada pela polícia. A um mês e meio do final do ano centenário da Revolução francesa, não conseguindo os seus fins, recorrem a um golpe militar, que derrumba a monarquia em 15 de novembro, dentro de uma grande continuidade das administrações ministeriais.

Após uma violenta campanha de prisão dos capoeiras conhecidos da polícia, uma lei faz do jogo de capoeira em praça pública uma contravenção.

O final da Revolta da Armada em 1893 marca o estabelecimento definitivo do regime republicano em nível central.

Os escritores do período 1865-1993, jornalistas e autores literários, são quase todos hóstis à atividade física, que consideram como muito inferior à atividade inteletual pura. Não interessam-se em classes populares, que acham feias e chatas. Na imprensa ilustrada (Revista Ilustrada) e nos quadros musicais do teatro de revista, o personagem do capoeira aparece por volta de 1878, justamente no momento em que o chefe da polícia preocupa-se das desordens. Os arquivistas, participando dos mesmos julgamentos de valor do que a aristocracia, conservaram menos estes documentos, que em seguida os historiadores estudaram menos. Podem ainda existir elementos para ser descobertos. Nos últimos anos do período, a correnteza naturalista na literatura entrega algumas informações sobre o jogo ou gymnastique spéciale que praticam os desordeiros capoeiras.

Todo o que acabamos de indicar cabe à capital, Rio de Janeiro. A pesquisa na Bahia e em outras cidades do Brasil ainda está nos seus primórdios.

1893-1930: A República Velha em busca de um esporte tropical.

A sociedade da República Velha, de 1889 a 1930, continua a do Império, sem o Poder Moderador. Os poderes provinciais retomam autonomia; os dominantes, conquistados pela ideologia racista vigorando na Europa e nos Estados-Unidos, empreitam-se em eliminar os Negros, preferindo constantemente os imigrantes européus e reforçando os julgamentos de valor sobre os tipos físicos, de tal jeito que a mestiçagem da população seja entendida como um “branqueamento”. Este estado de fatos extremamente desfavorável vai entretanto sucitar, em reação, uma série de publicações em defesa da contribuição africana ao Brasil.

De uma parte, inteletuais nacionalistas fazem do jogo de capoeira, no momento em que o Brasil importa da Inglaterra o espírito esportista, o esporto nacional brasileiro (Melo Morais Filho, 1893; Lima Campos, 1906; O.D.C, Capoeira, 1907; Coelho Neto, “Nosso Jogo” , Bazar, 1928; Anibal Burlamaqui, Gymnastica Nacional -- Capoeiragem / Methodizada e Regrada, 1928).

A imprensa também fornece os seus primeiros documentos de valor. Um escritor e jornalista, João do Rio, adota a reportagem de terreno, e questiona os Bahianos do Rio sobre os seus jogos – entre os quais o jogo de São Bento, ou cungu, ou de capoeira. Um capoeirista do Rio triunfa em 1909 de um lutador de jiu-jitsu no ringue; pretexto a umas notícias e algumas fotos mostrando as posições de treino. O escritor Monteiro Lobato compara o futebol, adotado em pouco tempo pelo povo brasileiro, à capoeira (“ O 22 da Marajó” , O Estado de São Paulo, 1920).

A invenção do fonógrafo e do cinematógrafo no início deste período deixam esperar encontrar os primeiros arquivos audiovisuais possivelmente antes do final do século 19, se não fossem destruídos pelo tempo...

Um educador, historiador e militante da emancipação dos Negros na Bahia, Manoel Raimundo Querino, descreve em 1916 com pormenores o jogo de capoeira, na Bahia de outrora. Dispõe-se para este período em Salvador dos mais antigos depoimentos, as vezes escrito, de antigos capoeiristas, da tradição oral, de arquivos policiais e de imprensa. Estudantes baiana(o)s agora estão, razoavelmente, no ponto avançado destas pesquisas.

É o início da verdadeira história da capoeira que conhecemos; anteriormente, precisamos por em questão a ligação da maior parte dos documentos que temos encontrado com o objeto da nossa pesquisa, em razão da ambiguidade do termo capoeira e da ausência de um elemento caraterístico do jogo de capoeira baiano, a música, fosse esta de canto acompanhado de batidas de palmas, exceto nos primeiros registros na época da independência política do Brasil que definem o jogo como uma “dança guerreira”.

1930-1965: duas estratégias para a promoção da capoeira baiana

Em 1930, a instabilidade da República Velha resolve-se em um golpe de Estado que, de algum jeito, resuscita o “poder moderador”, na pessoa do ditador Getúlio Vargas. Este regime pouco amigo da liberdade de pensamento emprega inteletuais para escrever, a partir dos fatos conhecidos, uma história oficial da nacionalidade brasileira qui integra, bem que em posição subalterna, a contribuição africana, e associa a capoeira à figura do mestiço. O Estado Novo reprime as organizações políticas dos Negros brasileiros, mas aplica, melhor do que o predecessor, as leis sobre a liberdade religiosa aos cultos de origem africana; o samba também serve para a exaltação nacional, bem que o maestro Vila-Lobos, investido de funções educativas oficiais, deplore a “indisciplina” da “música de carnaval”; é que os textos dos sambas populares são sempre satíricos e irreverentes, e que as idéias musicais dos dominantes continuam estreitamente orientadas pela escola européia. A capoeira, significando agora no presente o jogo de capoeira, e no passado a atividade perturbadora, constitua para o regime e os seus oponentes nacionalistas de esquerda um elemento do Brasil que se invente na hora. Escritores ligam a crónica dos desordeiros capoeiras da capital do Império ao surgimento do nacionalismo brasileiro interpretando episódios selectionados da história do país.

No Rio de Janeiro, uma tentativa de tornar oficial uma capoeira estreitamente esportiva no Rio fracassa no início dos anos 1930.

A Bahia, já faz muitos anos, é uma espécie de símbolo da riqueza cultural do Brasil; o jogo de capoeira, também chamado de vadiação continua bastante praticado apesar da repressão dos anos 1920. É esta modalidade do jogo, com os seu acompanhamento musical, que, aceitada oficialmente, vai difundir-se no Brasil todo, ocultando as demais formas locais ou fundindo-las com ela.

Depois da segunda guerra mundial, o Brasil vira mais democrático; o sistema de apadrinhamento enfraqueceu, sobretudo no Sul-Este, a parte mais rica do país, onde a imigração maciça dos anos 1870-1920 transtornou as estruturas sociais. Os Nordestinos (particularmente Baianos), dirigem-se para as grandes cidades industriais; alguns implantam a capoeira baiana em São Paulo nos anos 1960.

A documentação é volumosa... e a lei sobre direitos autorais proíbe distribui-la publicamente no Internet, mesmo de graça (as comunicações de pessoa a pessoa não caiem no âmbito da lei). Encontram-se reportagens e artículos de jornal, freqüentemente ilustrados de fotos, relatórios de folcloristas, notadamente Edison Carneiro, de artistas como o fotógrafo Pierre Verger, o pintor Carybé, a musicista Eunice Catunda, e sobretudo os primeiros depoimentos direitos dos capoeiristas na forma de discos de música de capoeira, de gravações feitas por etnólogos e de pequenos livros escritos com a ajuda e o conselho de inteletuais simpatizantes. Um oficial da Marinha, Lamartine Pereira da Costa, publica em ediçã popular Capoeira sem mestre, um manual prático que ilustra os principais movimentos, considerando, como Burlamaqui em 1928, a capoeira como um tipo de ginástica, uma coleção de técnicas corporais. Capoeiristas de nome, cenas de jogo de capoeira aparecem em livres de autores afamados como Jorge Amado, em peças teatrais como Pagador de Promessa (e o filme do mesmo nome, premiado em Cannes em 1962). Existem também filmes documentários e reportagens de televisão; podemos esperar que a expansão mundial da capoeira nós fará descobrir outros.

Estes documentos tratam sobretudo da capoeira como espetáculo turístico; mas encontram-se também relatos de abertura de academias em São Paulo e em outros lugares, onde pratica-se como atividade esportiva com ensino por proficionais.

1966-1985: capoeirologia em tempo de didatura.

O golpe militar de 1964 relança o Brasil num período de poder autoritário, desta vez sem moderação, no serviço dos poderes económicos. Os generais armam-se do nacionalismo, recuperando os temas dos anos 1930, acrescidos de forte dose de disciplina militar. A capoeira, que nesta época começa a ensinar-se em academias, sofre os efeitos deste ambiente.

Também repercuta as mudanças da vida popular. A construção das estradas de rodagem a partir do final dos anos 1940, e dos cais, no ínicio dos anos 1960, tem suprimido uma grande quantidade de empregos no porto. O trabalho na indústria ou na construção não tem as horas de espera propícias à prática informal do jogo de capoeira. Neste período de forte crescimento económico do Brasil, centrado no Sul-Este, aumenta o fluxo de turismo interno. Em Salvador, uma secretária municipal organiza as atrações turísticas, e toma uma posição de comando para os grupos de capoeiristas que procuram no espetáculo folclórico uma oportunidade de trabalho.

Em Capoeira Angola, de 1968, Waldeloir Rego, um baiano autodidato muito bem informado da cultura Afro-Brasileira, paga a sua falta de diplomas por algumas páginas de erudição que somente podem interessar os professores que apadrinharam a publicação; o resto das 462 páginas fornece um documento excepcional sobre a capoeira da Bahia naquela época. Outros trabalhos seguem. Ora eles refletam o embaraço de alguns em relação a uma atividade supostamente nacional, mas que aparece como local demais, ora aprofundem ou atualizam as informações sobre a música de capoeira ou a biografia de mestres. Deve-se ao capoeirista Jair Moura, aluno de mestre Bimba, um documentário sobre a velha guarda dos mestres da Bahia, Dança de Guerra, 1968.

A publicação de livros sobre o folclore e de artigos de jornais continua; a capoeira também é uma atração turística bem estabelecida. A produção de discos entrega documentos de valor disigual. Uma reportagem sobre a academia de Bimba mrerece destaque.

Com as independências africanas nos anos 1960 os estudos etnológicos deste continente tomam novo rumo. Pesquisadores incluem os fatos culturais reputados de origem africana nas suas pesquisas, chegando, particularmente no final do período, a publicações que situem melhor a permanência dos pensamentos africanos de diversas regiões do continente, notamente na música, e também os limites da sua transmissão.

Este período também é o da construção de organizações formalizadas, como as Federações de capoeira nos Estados brasileiros, sob impulsão oficial. Estas instituições criaram uma massa de documentos que refletam a sua atividade esportiva, regulamentos, classificação em níveis, listas de movimentos.

1985 - atualidade

Ao chegar na atualidade, jornalistas, antropólogos, esportistas, políticos, dirigentes de grupos de capoeira e outras pessoas produzem uma grande massa de documentos, com alto grau de repetição. O objetivo do seus autores e o uso que os outros fazem deles ficam mais importante do que o seu valor histórico, bem que as mudanças na prática da capoeira sejam tão rápidas que o passar de uns poucos anos torna-los sensíveis.

A expansão da capoeira em meios sociais com acesso à educação superior suscitou, no exterior e no Brasil, a figura do capoeirista universitário, que pesquisa ao redor da sua atividade de lazer. Pesquisadores de ciências sociais também escolhem a capoeira como assunto de estudo.

No domínio da histório, os pesquisadores puseram na luz uma quantidade de documentos; mas as conclusões que tiraram destes as vezes deslizaram do lado da mitologia.

O domínio da “capoeirologia” agora é imenso. Não se contam mais os livros, artigos, gravações, filmes e vídeos no tema: a dificuldade é discriminar. Capoeiristas estrangeiros também começam em exprimir o seu ponto de vista, as vezes muito interessante.


Notas

invenção da tradição: Hobsbawm, Eric e Ranger, Terence, The Invention of Tradition, 1993; Goody, J. The Interface Between the Written and the Oral, 1987.

Pol Briand - Paris, 16 março 2001.
Emendas em 11 out. 2002.

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