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Lima Campos: "A Capoeira", revista Kosmos, 1906

Em 1906, a luxuosa Kosmos, Revista Artistica, Scientifica e Literaria, do Rio de Janeiro, publica uma série de artigos sobre os costumes populares cariocas, ilustrada por Kalixto. O texto tem três partes; a primeira define a capoeira como uma luta defensiva, de esquiva; a segunda esboça uma história da capoeira no Rio de Janeiro; e a última, voltando aos princípios, destaca a observação, fundamental na defesa, nota o caráter escarnecedor do capoeira carioca. As seis caricaturas de Kalixto representam situações de luta, com forte caraterização dos participantes.

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Mise à jour:
27 juin 2005.

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Agradecimos ao historiador Carlos C. Cavalheiro, de Sorocaba, pela contribuição da reprodução digital. Original pertencente ao historiador Adolfo Frioli.

A capoeira

KOSMOS, Revista Artistica, Scientifica e Literaria, rua da Assembleia, n. 62, Rio de Janeiro. Ano III, 1906, n. 3, Março. Mensal, 2R$000, 25cm.

revista kosmos
nagoa e guaiamu

TYPOS E UNIFORMES DOS ANTIGOS NAGOAS E GUAYAMÚS
SENDO OS PRINCIPAES DISTINCTIVOS DOS PRI-
MEIROS CINTA COM CORES BRANCA SOBRE A ENCARNADA
E CHAPÉO DE ABA BATIDA PARA A FRENTE E
DOS SEGUNDOS COM CORES ENCARNADAS SOBRE A BRANCA
E CHAPÉO DE ABA ELEVADA NA FRENTE.

Não te conto nada seu compadre! o samba esteve cuerê-
réca. No fim que houve uma choramella de escacha. O Cara
Queimada estava de sorte com a Quinota quando o marchante
chegou. Ih! seu camarada! Foi um estrompicio!

O Marchante era sarado, foi logo encaro-
çando a joça. Eu tive que entrar com o meu
jogo, sim, tu sabes, que não vou nisso, e ali eu
estava separado, não havia cara que me levasse
vantagem. Quando a coisa estava preta eu fui
ver como era p'ra contar como foi.

Das cinco grandes luctas popu-
lares :  a savata franceza, o Jiu-
jitsu
japonez, o box in-
glez, o páu portuguez e
a nossa capoeira, temi-
veis pelo que possuem de
acrobacia intuitiva de elas-
terio e de agilidade em
seus recursos e avanços
tacticos e em seus golpes
destros é, sem duvida, a ultima, ainda des-
conhecida fóra do Brasil, mesmo na America,
a melhor a mais terrivel como recurso indivi-
dual de defesa certa ou de ataque impune.

Nas outras (com bem limitada excepção
de apenas alguns golpes detentivos ou de to-

lhimento no Jiu-jitsu e a limitadissima ex-
cepção do celebre circulo defensivo descripto
pelo movimento giratorio continuo do páu no
jogo portuguez) o valor está no ataque; na
capoeira porém, dá-se o contrario: o seu
merito basico é a defeza; ella é por excel-
lencia e na essencia defensiva.

O que a sabe e a executa em uma emer-
gencia qualquer, póde, se desejar tratar com
magnanimidade o adversario que desconheça
o jogo, poupa-o da mais insignificante con-
tusão, sem que se deixe atingir, entrentato
por um só golpe.

Dois grandes capoeiras, igualmente eximios,
igualmente ageis com conhecimentos exactos,
perfeitos e totaes do jogo, jamais se ferirão, a
não ser insignificante e levemente, o que bem
indica o grande valor defensivo que possue
essa estrategia popular e que a colloca acima
de todas as congeneres de qualquer outra
nacionalidade.

Embora, porém, seja o seu fim primordial a
defeza, ella dispõe contudo, de golpes de
ataque para o caso em que o contendor co-
nheça e saiba utilizar mais ou menos os se-
gredos da lucta, cabendo a victoria, em tal
circumstancia, ao mais destro, como, com o
mais meditado, profundo e louvavel acerto,

concluiria, em seu rela-
torio, qualquer uma das
nossas commissões
officiaes, pelo
governo no-

peneiração
A PENEIRAÇÃO

Com pouco vi um cabra peneirando na minha frente, dan-
sei de velho, o typo era bom! sambou e entrou no caterêté
commigo...

revista kosmos

meada para o estudo dos mais complexos pro-
blemas.

Porque, quando, onde e como nasceu a
capoeira ?

cocada
A COCADA

Fiz duas chamadas nos materiaes rodantes, de uma palma,
sempre com os mirones grelados no mecco, o cabra não leu...
fiz uma figuração por cima para o bruto fugir com o carão, e
grampeei o individuo. Chamei o cabra na xinga, levei a ca-
veira de lado, e fui buscar o machinismo mastigante do poeta.

O cabra engolio a lingua, damnou-se, não perdeu a scisma,
ganhou tento e compareceu de novo... Não fiz questão do
preço da banha...

Na transição, provavelmente, do reinado
portuguez para o primeiro imperio livre, pela
necessidade do indepen-
dente, physicamente fraco,
de se defender ou aggre-
dir o ex-possessor robus-
to, nos disturbios, então
frequentes, em tabernas e
matulas, por attrictos con-
stantes de nacionalidades,
tendo a sua geneses em
dois pontos diversos: ao
norte em Pernambuco, nos
primeiros faquistas contra
o marinheiro, como, em
represalia á autonomasia
de cabritos, appellidavam
os cafagestes o expossessor, appellido, aliás,
honroso, e, ao sul, aqui no Rio, nos primeiros
capoeiras propriamente ditos (porque a capo-
eira
, a legitima é por excellencia carioca) contra

o pé-de-chumbo, como igualmente, na época,
tambem appellidavam os independentes os
individuos, de baixa classe, da nacionalidade
que nos colonisára.

Ella surgia, como a arma original e pre-
cisa imposta pelo momento popular e pela
disparidade como já dissemos, das condições
physicas dos contendores.

Creou-a o espirito inventivo do mestiço,
porque a capoeira não é portugueza nem
é negra, é mulata, é cafusa e é mameluca,
isto é--é cruzada, é mestiça, tendo-lhe o mes-
tiço annexado, por principios atavicos e com
adatação intelligente, a navalha dos fadis-
tas da mouraria lisbôeta, alguns movimentos
sambados e simiescos do africano e, sobre-
tudo, a agilidade, a levipedez felina e pas-
mosa do indio nos saltos rapidos leves e
imprevistos para um lado e outro, para van-
te e, surprehendentemente, como um tigrino
real, para traz, dando sempre a frente ao ini-
migo.

Durante o segundo imperio, a capoeira
chegou ao auge, foi verdadeiramente, aquella
época, a do seu pleno dominio e maximo
desenvolvimento. O capoeira, então, creou o
calão, a gyria, o argot technico
e nelle em moldurou
o jogo.

rasteira
O CALÇO OU A RASTEIRA

Cahi no baniano rente a poeira, e isquei-lhe um rabo-
de raia que o marreco voôu na alegria do tombo, indo amarro-
tar a tampa do juizo n'uma canastra, e ahi gritei: -- Entra
negrada! O turuna enfeitou-se outra vez... Oh! cabra cutuba!

revista kosmos

Foram formados os partidos aguerridos, as
maltas como eram chamadas: Conceição da
Marinha, Moura, Lapa, Carpinteiros de S. José,
Gloria, etc.

Esta ultima, na sua época aurea, a mais
terrivel, teve fóros de verdadeira instituição
politica. Celebre parlamentar, hoje fallecido,
chamava-a mesmo a flôr da minha gente, e
nella tinha, sob a sua chefia, um terrivel exer-
cito eleitoral.

Depois, todas essas maltas decahiram ou,
antes, se fundiram em duas grandes legiões:
Nagôas e Guayamús, ou simplesmente Guayas
como, por entenderem ser euphonicamente
mais bello, se chamavam, ás veses, os proprios
representantes desta segunda phalange.

Foi enorme o numero de notabilidades
capoeiras e nos annaes dessa lucta nacional
ainda perduram as autonomasias famigeradas
dos Bocca Negra, Bocca Queimada, Cá-te-
Espero, Trinca-Espinhas, Carrapeta, Ferro,
Treme-Terra, Cabelleira, Parafuso
e muitos
outros.

Quando chefe de policia do governo pro-
visorio, em 1890, Sampaio Ferraz, deu caça
tenaz e de morte ás maltas, conseguindo des-
troçal-as, pela eliminação dos chefes e
dos immediatos demais ascendencia.

Hoje a capoeira é usada com ca-
rater menos proficional e sem arregi-
mentação séria e disciplinada como
outr'ora, quando a organisação e a
manutenção das maltas
obedeciam ás disciplinas
de uma regulamentação
perfeita e um verdadeiro
quadro de classe, desde
as chefias e sub-chefias
até os carrapetas que
eram os mais novos, os
aprendizes, alguns de, apenas, 12 e 13 annos
de idade, e já temiveis, tendo toda a malta
os seus deveres e funcções perfeitamente co-
dificados.

Os capoeiras modernos não levam já a
esses extremos o amor a arte; são mais, a
bem dizer, mashorqueiros navalhistas, faquis-
tas emfim, estrilhadeiros avulsos, que propria,
exclusiva, proficional e arregimentamente ca-
poeiras
. Sabem, uns mais, outros menos, o
jogo, mas não fazem delle verdadeiramente
uma arte, uma profissão, uma instituição.

A alma do capoeira é o olhar; uma esgri-
ma subtil, agil, firme, attenta em que a retina
é o florete flexivel penetrante indo quasi de-
vassar a intenção ainda occulta, o desejo, ape-
nas, pensado, voltada sempre para o adversa-
rio, apanhando-lhe todos os movimentos, sur-
prehendendo-lhe os mais insignificantes ame-
aços, para desvial-os, em tempo, com a destresa
defensiva dos braços em rebates lépidos ou
evital-os com os desvios lateraes e os recuos
saltados de corpo, leve, sobre ponta de pés,
até falcultar e perceber a aberta e entrar, para
ver como é e para contar como foi
, segundo o
calão proprio.

A capoeira não inutilisa unicamente o
adversario pelos seus golpes; inutilisa-o tam-
bem, e peor, pelo ridiculo.

O capoeira não lucta em silencio: lucta
usando sempre o seu calão que troça, achin-

lamparina
A LAMPARINA

Grimpei, perdi a estribeira, cocei-me, dei de mão na bar-
beira e... ia sapecar-lhe um rabo de gallo, quando o cabra cas-
cou-me uma lamparina que eu vi vermelho!

calha, exaspera, ridicularisa o contendor. A
gyria é chula, a phrase é canalha.

Além disso a cada golpe o adversario cáe
nas mais grotescas, nas mais comicas, nas
mais enxovalhadoras posições.

Um vencido capoeira em lugar publico,
nunca póde sahir dignamente vencido porque
a sua derrota provoca sempre a gargalhada.

revista kosmos

Na cabeçada, por exemplo, a que o capo-
eira
chama acanalhadamete -- levar a torre
do pensamento ao apparelho mastigante do
poeta
, o adversa-
rio e apanhado,
com a cabeça,
n'um golpe brus-
co, pelo baixo
queixo, por sob
a barba e com
impulso pasmo-
so que é o segre-
do do capoeira e
é a propriedade
do cauthchout, é
elevado ao es-
paço, por mais
robusto e pesa-
do que seja, na
figura grotesca
de um batrachio,
vindo apastelar-
se de ventre no
sólo ou camba-

lhotando para traz de pernas ridiculamente
ao ar.

E' uma arma terrivel!

Em falta de
melhores deta-
lhes as pequenas
figuras caricatu-
raes intercaladas
no texto, e que,
juntamente com
as legendas são
da autoria de
Calixto Cordei-
ro, o conhecido
e talentoso cari-
caturista, indi-
cam alguns dos
golpes de defesa e
ataque mais usuaes
e dão idéa do calão
tecnhico.

L.C.

meter o andante
METER O ANDANTE

Ahi não conversei, grudei na parede, escorei o tronco, e meti-lhe
o andante na caixa de comida. O dreco bispando que eu não era
pecco, chamou na canella que si bem corre, está muito longe...

Eu voltei p'ro samba garganteando:

"Meu Deus que noite sonorosa"

decoração

KOSMOS, Revista Artística, Científica e Literária, rua da Assembléia, n. 62, Rio de Janeiro. Ano III, 1906, n. 3, Março. Mensal, 2R$000, 25cm.

nagoa e guaiamu
TYPOS E UNIFORMES DOS ANTIGOS NAGOAS E GUAYAMÚS
SENDO OS PRINCIPAES DISTINCTIVOS DOS PRIMEIROS CINTA COM CORES BRANCA SOBRE A ENCARNADA E CHAPÉO DE ABA BATIDA PARA A FRENTE E DOS SEGUNDOS COM CORES ENCARNADAS SOBRE A BRANCA E CHAPÉO DE ABA ELEVADA NA FRENTE.

Não te conto nada seu compadre! o samba esteve cuerêréca. No fim que houve uma choramella de escacha. O Cara Queimada estava de sorte com a Quinota quando o marchante chegou. Ih! seu camarada! Foi um estrompicio!

O Marchante era sarado, foi logo encaroçando a joça. Eu tive que entrar com o meu jogo, sim, tu sabes, que não vou nisso, e ali eu estava separado, não havia cara que me levasse vantagem. Quando a coisa estava preta eu fui ver como era p'ra contar como foi.

A capoeira

Das cinco grandes lutas populares: a savata francesa, o jiu-jitsu japonês, o box inglês, o pau português e a nossa capoeira, temiveis pelo que possuem de acrobacia intuitiva de elastério e de agilidade em seus recursos e avanços táticos e em seus golpes destros é, sem duvida, a última, ainda desconhecida fora do Brasil, mesmo na América, a melhor a mais terrível como recurso individual de defesa certa ou de ataque impune.

Nas outras (com bem limitada exceção de apenas alguns golpes detentivos ou de tolhimento no Jiu-jitsu e a limitadíssima exceção do célebre círculo defensivo descrito pelo movimento giratório contínuo do pau no jogo português) o valor está no ataque; na capoeira porém, dá-se o contrario: o seu mérito básico é a defesa; ela é por excelência e na essência defensiva.

O que a sabe e a executa em uma emergência qualquer, pode, se desejar tratar com magnanimidade o adversário que desconheça o jogo, poupa-o da mais insignificante contusão, sem que se deixe atingir, entrentato por um só golpe.

Dois grandes capoeiras, igualmente exímios, igualmente ageis com conhecimentos exatos, perfeitos e totais do jogo, jamais se ferirão, a não ser insignificante e levemente, o que bem indica o grande valor defensivo que possue essa estratégia popular e que a coloca acima de todas as congêneres de qualquer outra nacionalidade.

Embora, porém, seja o seu fim primordial a defesa, ela dispõe contudo de golpes de ataque para o caso em que o contendor conheça e saiba utilizar mais ou menos os segredos da luta, cabendo a vitória, em tal circumstância, ao mais destro, como, com o mais meditado, profundo e louvavel acerto, concluiria, em seu relatório, qualquer uma das nossas commissões officiais, pelo governo nomeada para o estudo dos mais complexos problemas.

peneiração
A PENEIRAÇÃO

Com pouco vi um cabra peneirando na minha frente, dansei de velho, o typo era bom! sambou e entrou no caterêté commigo...

Porque, quando, onde e como nasceu a capoeira?

cocada
A COCADA

Fiz duas chamadas nos materiaes rodantes, de uma palma, sempre com os mirones grelados no mecco, o cabra não leu... fiz uma figuração por cima para o bruto fugir com o carão, e grampeei o individuo. Chamei o cabra na xinga, levei a caveira de lado, e fui buscar o machinismo mastigante do poeta.

O cabra engolio a lingua, damnou-se, não perdeu a scisma, ganhou tento e compareceu de novo... Não fiz questão do preço da banha...

Na transição, provavelmente, do reinado português para o primeiro império livre, pela necessidade do independente, fisicamente fraco, de se defender ou agredir o ex-possessor robusto, nos distúrbios, então freqüentes, em tabernas e matulas, por atritos constantes de nacionalidades, tendo a sua genese em dois pontos diversos: ao norte em Pernambuco, nos primeiros faquistas contra o marinheiro, como, em represália à autonomasia de cabritos, apelidavam os cafagestes o ex-possessor, apelido, aliás, honroso, e, ao sul, aqui no Rio, nos primeiros capoeiras propriamente ditos (porque a capoeira, a legítima é por excellencia carioca) contra o pé-de-chumbo, como igualmente, na época, também apelidavam os independentes os indivíduos, de baixa classe, da nacionalidade que nós colonisara.

Ela surgia, como a arma original e precisa imposta pelo momento popular e pela disparidade como já dissemos, das condições físicas dos contendores.

Creou-a o espírito inventivo do mestiço, porque a capoeira não é portuguesa nem é negra, é mulata, é cafusa e é mameluca, isto é--é cruzada, é mestiça, tendo-lhe o mestiço anexado, por princípios atávicos e com adatação intelligente, a navalha dos fadistas da mouraria lisbôeta, alguns movimentos sambados e simiescos do africano e, sobretudo, a agilidade, a levipedez felina e pasmosa do índio nos saltos rápidos leves e imprevistos para um lado e outro, para vante e, surpreendentemente, como um tigrino real, para trás, dando sempre a frente ao inimigo.

Durante o segundo império, a capoeira chegou ao auge, foi verdadeiramente, aquella época, a do seu pleno domínio e máximo desenvolvimento. O capoeira, então, creou o calão, a gíria, o argot técnico e nelle emoldurou o jogo.

rasteira
O CALÇO OU A RASTEIRA

Cahi no baniano rente a poeira, e isquei-lhe um rabo-de-raia que o marreco voôu na alegria do tombo, indo amarrotar a tampa do juizo n'uma canastra, e ahi gritei: -- Entra negrada! O turuna enfeitou-se outra vez... Oh! cabra cutuba!

Foram formados os partidos aguerridos, as maltas como eram chamadas: Conceição da Marinha, Moura, Lapa, Carpinteiros de S. José, Gloria, etc.

Esta última, na sua época aurea, a mais terrível, teve foros de verdadeira instituição política. Célebre parlamentar, hoje falecido, chamava-a mesmo a flôr da minha gente, e nela tinha, sob a sua chefia, um terrível exército eleitoral.

Depois, todas essas maltas decaíram ou, antes, se fundiram em duas grandes legiões: Nagôas e Guayamús, ou simplesmente Guayas como, por entenderem ser eufonicamente mais belo, se chamavam, às vezes, os próprios representantes desta segunda falange.

Foi enorme o número de notabilidades capoeiras e nos annais dessa luta nacional ainda perduram as autonomasias famigeradas dos Bocca Negra, Bocca Queimada, Cá-te-Espero, Trinca-Espinhas, Carrapeta, Ferro, Treme-Terra, Cabelleira, Parafuso e muitos outros.

Quando chefe de polícia do governo provisório, em 1890, Sampaio Ferraz, deu caça tenaz e de morte às maltas, conseguindo destroçal-as, pela eliminação dos chefes e dos imediatos de mais ascendência.

Hoje a capoeira é usada com caráter menos proficional e sem arregimentação séria e disciplinada como outr'ora, quando a organisação e a manutenção das maltas obedeciam às disciplinas de uma regulamentação perfeita e um verdadeiro quadro de classe, desde as chefias e sub-chefias até os carrapetas que eram os mais novos, os aprendizes, alguns de, apenas, 12 e 13 anos de idade, e já temíveis, tendo toda a malta os seus deveres e funcções perfeitamente codificados.

Os capoeiras modernos não levam já a esses extremos o amor a arte; são mais, a bem dizer, mashorqueiros navalhistas, faquistas emfim, estrilhadeiros avulsos, que propria, exclusiva, proficional e arregimentamente capoeiras. Sabem, uns mais, outros menos, o jogo, mas não fazem dele verdadeiramente uma arte, uma profissão, uma instituição.

[princípios]

A alma do capoeira é o olhar; uma esgrima sútil, agil, firme, attenta em que a retina é o florete flexível, penetrante, indo quasi devassar a intenção ainda occulta, o desejo, apenas, pensado, voltada sempre para o adversário, apanhando-lhe todos os movimentos, surprehendendo-lhe os mais insignificantes ameaços, para desvial-os, em tempo, com a destresa defensiva dos braços em rebates lépidos ou evital-os com os desvios laterais e os recuos saltados de corpo, leve, sobre ponta de pés, até falcultar e perceber a aberta e entrar, para ver como é e para contar como foi, segundo o calão proprio.

lamparina
A LAMPARINA

Grimpei, perdi a estribeira, cocei-me, dei de mão na barbeira e... ia sapecar-lhe um rabo de gallo, quando o cabra cascou-me uma lamparina que eu vi vermelho!

A capoeira não inutilisa unicamente o adversario pelos seus golpes; inutilisa-o também, e pior, pelo ridículo.

O capoeira não luta em silêncio: luta usando sempre o seu calão que troça, achincalha, exaspera, ridicularisa o contendor. A gíria é chula, a frase é canalha.

Além disso a cada golpe o adversário cai nas mais grotescas, nas mais cómicas, nas mais enxovalhadoras posições.

Um vencido capoeira em lugar público, nunca pode sair dignamente vencido porque a sua derrota provoca sempre a gargalhada.

Na cabeçada, por exemplo, a que o capoeira chama acanalhadamete -- levar a torre do pensamento ao apparelho mastigante do poeta, o adversário é apanhado, com a cabeça, n'um golpe brusco, pelo baixo queixo, por sob a barba e com impulso pasmoso que é o segredo do capoeira e é a propriedade do cauthchout, é elevado ao espaço, por mais robusto e pesado que seja, na figura grotesca de um batrachio, vindo apastelar-se de ventre no solo ou cambalhotando para trás de pernas ridiculamente ao ar.

É uma arma terrível!

Em falta de melhores detalhes as pequenas figuras caricaturais intercaladas no texto, e que, juntamente com as legendas são da autoria de Calixto Cordeiro, o conhecido caricaturista, indicam alguns dos golpes de defesa e ataque mais usuais e dão idéa do calão técnico.

meter o andante
METER O ANDANTE

Ahi não conversei, grudei na parede, escorei o tronco, e meti-lhe o andante na caixa de comida. O dreco bispando que eu não era pecco, chamou na canella que si bem corre, está muito longe...

Eu voltei p'ro samba garganteando:

"Meu Deus que noite sonorosa"

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Cronologia dos documentos históricos sobre a capoeira.
Chronologie des documents historiques.

Lucia Palmares & Pol Briand
3, rue de la Palestine 75019 Paris
Tel. : (33) 1 4239 6436
Email : polbrian@wanadoo.fr

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