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O 22 da "Marajó"

por

Monteiro Lobato

(Taubaté, 1882- São Paulo, 1948)

Crônica de Monteiro Lobato publicada na coletânea A Onda Verde (Monteiro Lobato Editora, São Paulo, 1921).

seguida por Vida das pessoas citadas e Notas avulsas, por Pol Briand;
vê também (em francês) Note sur le "droit d'auteur", do mesmo.

   Esse delirio que por aí vai pelo futebol tem seus fundamentos na propria natureza humana. O espetaculo da luta sempre foi o maior encanto do homem; e o prazer da vitoria, pessoal ou do partido, foi, é e será a ambrosia dos deuses manipulada na terra. Admiramos hoje os grandes filosofos gregos, Platão, Socrates, Aristoteles, seus coevos, porém, admiravam muito mais aos atletas que venciam no estado. Milon de Crotona, campeão na de torcer pescoços a touros, só para nós tem menos importancia que seu mestre Pitagoras. Para os gregos, para a massa popular grega, seria iconcebível a ideia de que o filosofo pudesse no futuro ofuscar a gloria do lutador.

   Em França o homem hoje mais popular é George Carpentier, mestre em socos de primeira classe; e se derem nas massas um balanço sincero, verão que ele sobrepuja em prestigio aos proprios chefes supremos vencedores da guerra.

   Nos Estados Unidos ha sempre um campeão de boxe tão entranhado na idolatria do povo que está em suas mãos subverter o regime politico.

   Entre nós ha o exemplo recente de Friedenreich, um pé de boa pontaria pelo qual nossos meninos são capazes de sacrificar a vida.

   E os delirios coletivos provocados pelo combate de dois campeões em campo? Impossivel assistir-se a espetaculo mais revelador da alma humana que os jogos de futebol em que disputam a primazia paulistanos e italianos em S. Paulo.

   Não é mais esporte, é guerra. Não se batem duas equipes, mas dois povos, duas nações, duas raças inimigas. Durante todo o tempo da luta, de quarenta a cincoenta mil pessoas deliram em transe, extaticas, na ponta dos pés, coração aos pulos e nervos tensos como cordas de viola. Conforme corre o jogo, ha pausas de silencio absoluto na multidão suspensa, ou deflagrações violentissimas de entusiasmo, que só a palavra delirio classifica. E gente pacifica, bondosa, incapaz de sentimentos exaltados, sai fóra de si, torna-se capaz de cometer os mais horrorosos desatinos.

   A luta de vinte e duas feras no campo transforma em feras os cincoenta mil espectadores, possibilizando um enfraquecimento mutuo, num conflito horrendo, caso um incidente qualquer funda em corisco as eletricidades psiquicas acumuladas em cada individuo.

   O jogo de futebol teve a honra de despertar o nosso povo do marasmo de nervos em que vivia. Antes dele, só nas classes medias a luta politica tinha o prestigio necessario para uma exaltaçãozinha periodica.

   E isso porque de todos os esportes tentados no Brasil só o futebol conseguiu aclimar-se, como o café. Hoje, alastrado de norte a sul, transformou se quasi em praga, conseguindo, só ele, interessar vivamente, exaltadamente, delirantemente, o nosso povo.

   No Estado de S.Paulo não ha recanto, viloca, fazenda, bairro, onde não sejam vistos num chão plaino e batido os dois retangulos opostos, assinaladores dum ground. Pelas regiões novas, de virgindade só agora atacada pelos invasores, é comum topar-se de subito, em plena mata, uma clareira aberta, limpa, onde nas horas de folga os derrubadores de pau vêm bater bola.

Já assistimos a um match em certa fazenda. Tudo muito bem arrumado os players uniformizados, de meias grossas e botinas ferradas, tal qual nos clubs das cidades. E falando em corners, goals, hands, halftimes, a inglesia inteira dos termos tecnicos.

   Ao nosso lado o fazendeiro explicava:

   -- Aquele goal-keeper é carreiro; amanhã de madrugada está de pé no chão puxando lenha. O center-half é madeireiro; está-me lavrando umas perobas na roça velha. Os full-backs são tropeiros; e os forwards, simples puxadores de enxada.

   Era assombroso! Estavamos diante da maior revolução de costumes jamais operada em terras de Santa Cruz. E tudo por arte e obra de uma simples esfera de couro estufada de ar...

   Antes do futebol, só a capoeiragem conseguiu um cultozinho entre nós e isso mesmo só na ralé. Teve seus periodos aureos, produziu seus Friedenreichs, e afinal acabou perseguida pelo governo, com grande magua dos tradicionalistas que viam nela uma das nossas poucas coisas de legitima criação nacional.

Infelizmente não se guardou memoria escrita desse esporte, cujos anais se encheram de maravilhosas proezas. Não teve poetas, não teve cantores, não teve sabios que as salvaguardassem do olvido; e de todo o nosso rico passado de rasteiras, rabos d'arraia e soltas restam apenas anedotas eparsas, em via de se diluirem na memoria de velhos contemporaneos.

   Que se fixe, pois, em letra de fôrma, ao menos o caso do 22 da Marajó com tanto chiste narrado pelo maior humorista brasileiro, esse prodigio Mark Twain inedito que é o sr. Filinto Lopes.

   O 22 da Marajó era um imperial marinheiro, mestre em desordens, amigo de revirar de pernas para cima quiosques portugueses. Rapazinho bonito, imperava na Saude onde suas proezas de capoeira excepcional andavam de boca em boca, discutidas como façanhas de Rolando. E tais fez que o governo, incomodado, deportou-o para o Norte, a servir em canhoneira da flotilha estacionada no Pará. A mudança de clima regenerou-o e o rapaz, resolvendo tirar partido dos seus dotes plasticos, ferrou namoro com a mulher de um Shipchandler, da qual se tornou amante.

   Pouco durou o trio.

   O Shipchandler morreu e o 22 casou-se com a viuva, herdeira dum paco de quatrocentos contos de réis. Pediu baixa, obteve-a e foi com a esposa em viagem de nupcias á Europa, onde permaneceu dois anos. Ao cabo regressou á patria, elegendo o Rio de Janeiro para residencia definitiva.

   Mas quanto mudara! Transformado num perfeito gentleman, embasbacava a rua do Ouvidor com o apuro dos trajes, as polainas, as luvas, a cartola café-com-leite.

   -- Algum fidalgo certamente, cochichavam. Não vêem que modos distintos?

   E o 22, impavido, petroneando de monoculo no olho, a olhar de cima para os homens e as coisas...

   Tinha habitos certos e todos os dias passava pelo Largo de S. Francisco, como paca pelo carreiro.

   Aconteceu, porém, que ali era ponto de uma roda de rapazes chiques, fortemente despeitados ante a esmagadora elegancia do desconhecido, rival perigoso, sem duvida, em materia de esporte feminino. Os quais rapazes, depois de muito cochicho, deliberaram quebrar a prôa do novo concorrente, apenas aguardando para isso a bôa oportunidade.

   Certa vez em que Petronio passava mais imponente do que nunca, coincidiu aproximar-se da roda chique um capoeira mordedor, que se gabava de ser mestre em soltas.

   Quem sabe hoje o que é a solta, nesta epoca de kickes e shootes? Solta era uma cabeçada sem hands, isto é, sem encostar a mão no adversário.

   Mas o capoeira chegou e mordeu-os em cinco mil réis.

   -- Perfeitamente, responderam os rapazes, mas primeiro has de sapecar uma solta naquele freguês que ali vai de monoculo.

   -- É já! exclamou o capoeira, gingando o corpo. E, tirando o chapeu, foi postar-se na calçada por onde vinha o 22, de cartola e monoculo, sacudindo passos de lord, muito esticado dentro do seu croisé cortado em Londres.

Um, dois, tres... Quando Petronio o defronta, o capoeira avança e despeja-lhe uma formidavel e primorosa cabeçada.

   O Petronio, porém, quebra o corpo, e a cabeça do atacante vai de encontro á parede, ao mesmo tempo que um pé bem manejado planta-o no chão com elegantissima rasteira. O mordedor, tonto e confuso, ergue-se... mas desaba de novo, cerceado por outra gentil rasteira. Passara imprevistamente de agressor a agredido e, desnorteado, deu sebo ás canelas, indo apalpar o galo da cabeça a cem passos de distancia.

   Enquanto isso o Petronio, serenamente consertando a gravata, com grande calma dirige a palavra á assombradissima roda elegante.

   -- Só uma besta destas dá soltas sem negaça. Já dizia o Cincinato Quebra- Louça: soltas sem negaça, só em lampeão de esquina. Se "grampeasse", inda vá lá. O Trinca-Espinhas, o Estrepolia e o Zé da Gambôa admitem soltas neste caso, mas isto mesmo só quando o semovente não é firme de letra.

   E girando entre os dedos a bengala de unicornio, concluiu com saudades:

   -- Já gostei deste divertimento. Hoje a minha posição social não mais permite. Mas vejo com tristeza que a arte está decaindo...

   E lá se foi, impertubavel e superior, murmurando consigo:

   -- Soltas sem negaça... Forte besta!

Passando o momento de estupor e depois de muito debaterem o estranho incidente, os elegantes planejaram solene desforra. Contratariam o famoso Dente de Ouro, da Saude, para romper o baluarte e quebrar de vez a prôa ao estranho personagem.

   Tudo bem assentado, no dia do ajuste vieram colocar-se no carreiro da vitima, com o rompe-e-rasga á frente.

   -- É aquele lá! disseram, assim que repontou ao longe a cartola café-com-leite do Petronio.

   Dente de Ouro avançou para o desconhecido. Ao defronta-lo, porém, entreparou e abriu-se num grande riso palerma -- o riso da boca aberta quem reconhece um antigo parceiro.

   -- O 22... Voce por aqui?...

   -- Cala o bico, moleque, e toma lá para o cigarro; mas afasta-se, que hoje sou gente e não ando em más companhias, respondeu o Petronio, correndo-lhe uma pelega de dez e seguindo o seu caminho impertubavelmente.

   Dente de Ouro voltou para o grupo dos elegantes, alisando a nota.

   -- Então? Perguntaram estes, desnorteados com o imprevisto desfecho.

   -- 'cês tão bestas ! Pois aquele é o 22 da Marajó, corpo fechado p'ra "sardinha" e pé que nunca "lalou saque". Estrompar o 22, 'cês tão bestas.


NOTAS

por Pol Briand

Vida das pessoas citadas

ordem alfabética

"22 da Marajó". Os marinheiros acostumavam-se a ser chamados pelos números de matricula na tripulação dos navios. Houve uma canonheira Marajó, participante da Revolta da Armada em 1893 e afundada em frente ao Desterro (Florianópolis). O termo Imperial Marinheiro remete o início da história mais de trinta anos antes do tempo da narração. Essas vagas lembranças de fatos meio esquecidos da história do Brasil criam uma impressão de verosemelhança, remetem para um passado que parece algo familiar, mas que é difícil ou impossível situar com precisão. Essa técnica caraterisa os gêneros da crônica e do conto, de que Monteiro Lobato fez a sua especialidade.

Aristoteles filósofo greco, 384--322 AC. A sua lógica foi o molde único do pensamento européio durante séculos.

Carpentier, Georges, lutador francês (Liévin 1894 - Paris 1975), treinado na savate, optou pelo box inglês, e ganhou o título de campeão de Europa de peso meio-médio, médio, meio-pesados e pesados. Campeão mundial dos meio-pesados em 1920, ano da publicação do "22 da Marajó", será vencido por Dempsey em 1921.

Cincinato Quebra-Louça --apelido de capoeira não indentificado.

Dente de Ouro -- apelido de capoeira não identificado.

Estrepolia -- apelido de capoeira não identificado.

Friedenreich, Artur, Jogador brasileiro de futebol (São Paulo SP 1892 -- id. 1969), integrante da primeira seleção brasileira em 1914.

Lobato, José Bento Monteiro -- escritor, editor, industrial, político e diplomata brasileiro, nascido em Taubaté, estado de São Paulo, em 18 de abril de 1882, e falecido em São Paulo em 4 de julho de 1948. A morte dos seus pais em 1897 e 1898, fica no encargo do seu avô, o Visconde de Tremembé. Bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo, 1904. Promotor público em Areias, São Paulo, 1907. Escreve em jornais e revistas. Em 1911 a morte do avô herda a fazenda de Buquira e abandona o cargo. Enfentando dificuldades como fazendeiro, entretanto continua a escrever artigos, mais tarde incluidos nas coletâneas Uma velha praga e Urupês, em que aparece a personagem de Jeca Tatu, caboclo atrasado que chama de "piolho na terra". Mas tarde mudará uns tantos a opinião. Em 1917, vende a fazenda e muda-se com a esposa e filhos para São Paulo. Compra a Revista do Brasil. Publica um inquérito sobre o saci-pererê. Funda a primeira editora Monteiro Lobato e Cia., e mais tarde a Cia Gráfico-Editora Monteiro Lobato, primeira gráfica de livros no Brasil. Em 1920 lança a coletânea A Onda Verde, cujo título simboliza a expansão da cultura do café para o interior do Brasil, e que contém a crónica "O 22 da Marajó". A revolução de 1924 obriga-o a liquidar, em 1925, a editora, que transformará-se em Companhia Editora Nacional. 1927 -- 1931 é adido comercial junto ao consulado brasileiro em Nova Iorque. De volta ao Brasil, engaja-se em campanhas pregando exploração do ferro e do petróleo brasileiros, enfrentando as opiniões oficiais, negando apoio à didadura de Vargas que o convidara para ser Ministro da Propaganda, preso alguns meses, representa uma figura perturbante na vida política. A partir de 1921, defende as suas idéias fundamentais na literatura infantil, ramo menos polémico para o qual a sua obra é reconhecida por todos.

Lopes, Filinto -- Não consegui notícia biográfica deste senhor, apresentado como a fonte da anedota principal do texto. Segundo Décio de Almeida Prado (SP 1917 -- id. 2000), Filinto Lopes era "um homem que não escrevia, mas gostava de conversar com imaginação e humor, sendo considerado o mais espirituoso entre todos os freqüentadores da roda literária do Estado" [o cotidiano O Estado de São Paulo, de que D. de Almeida Prado era diretor do Suplemento Literário após 1941] -- O Estado de São Paulo, São Paulo, 27 fev. 2000. Esta apresentação confirma a de Monteiro Lobato, sem todavia acrescentar mais informação. Filinto Lopes aparece na lista dos contribuidores do Dialeto Caipira de Amedeu Amaral (1922).

Milon de Crotona -- lutador grego do 6.o-5.o século AC, reputado invincível.

Petronio -- Caius Petronius Arbiter , escritor e grande senhor, íntimo do imperador Nero, falecido em 65. Autor provável do Satiricon

Pitagoras -- filósofo grego, 6.o séc. AC.

Platão -- filósofo grego, 428-348 AC.

Rolando -- guerreiro franco, personagem importante do popular cíclo de cantos de Carlo Magno, cujo modelo histórico faleceu em 778.

Socrates -- filósofo grego, Athenas, 470-399 AC.

Trinca-Espinhas -- apelido do capoeira Manoel João de Freitas, que aparece na crónica policial na noite de 7 de março 1880 ao ficar ferido de punhalada no peito num conflito , na rua de S.Cristovão [Tito Augusto Pereira de Mattos, Relatório do Chefe da Polícia da Corte, 31 de Março de 1880, anexo ao Relatório do Ministro da Justiça 1879, p. A-G-10 -- ver www.crl.edu]. Também citado em Coelho Neto "Nosso Jogo", in Bazar, 1928.

Twain, Mark, pseudónimo de Samuel Langhorne Clemens, famoso conferencista, humorista, jornalista e romancista (Floride, Miss., USA 1855--Redding, Conn., USA, 1910). Humoroso narrador e feliz observador da vida e da língua popular norte-americana.

Zé da Gambôa -- apelido de capoeira não identificado. O bairro da Gambôa no Rio de Janeiro é vizinho ao da Saúde, em que "imperava" o 22.

Notas avulsas

   Monteiro Lobato afirmou que sempre escreveu em reação à uma provocação, alguma coisa ou indivíduo que o aboreceria:

Sempre escrevi por exigência orgânica, quando qualquer coisa, em meu organismo, exigia e impunha a fixação do pensamento em palavras -- para alívio interno. Nunca escrevi por sugestão externa. O livro mais interessante que poderia faze seria a história dos meus contos... Meus contos foram, todos êles, vingancinhas pessoais, desabafos. Eu sentia a necessidade de vingar-me de um sujeito qualquer e essa necessidade não cessava e eu não tinha alívio enquanto não desabafasse, pintando o freguês numa situação cômica ou trágica, que me fizesse rir. Nunca visava o público. Publicava minhas vinganças em qualquer jornaleco do interior e sempre com pseudônimos.

Apud. Cavalheiro, Edgard, "Vida e Obra de Monteiro Lobato", in Urupês (O.C. de Monteiro Lobato 1a. série Literatura Geral, vol. 1) S.Paulo:Ed. Brasiliense, 1959, p. 28.

No caso, Monteiro Lobato, que tinha "horror à imitação" (Cavalheiro, op.cit., p. 34), reage à recente paixão brasileira pelo recém-importado futebol, a que vem contrapondo a tradicional capoeira. Entretanto, não temos sinal que Monteiro Lobato tenha compartilhado das opiniões dos "tradicionalistas que viam nela [capoeira] uma das nossas poucas coisas de legitima criação nacional". Nacionalista, foi, mas modernizador, e as vezes violentemente oposto ao conservatismo popular (como se vê na sua personagem de Jeca Tatu).

   Para Melo Morais Filho, o valor da crônica é a preservação na memória dos casos, das palavra de um saudoso passado. Monteiro Lobato, sem deixar de escolher para a narrativa uma seleção das palavras do jargão da capoeiragem, das que não precisam de explicação, mas esporam a imaginação, estrutura solidamente o conto ao redor da função social metafórica que atribue ao caso. A capoeiragem -- talvez tida por representativa da cultura tradicional brasileira -- não só "afinal acabou perseguida pelo governo", mais foi abandonada, embora com saudades, pelo próprio 22 da Marajó, quando "a minha posição social não mais permite, é que hoje sou gente", e que anda disfaçado de esnobe européio. A cultura nacional é associada à ralé, enquanto ou porque as classes abastadas rejozijam-se na imitação do jeito européu de lidar com as paixões sociais básicas, de que tratava no início. Isto, de certa maneira, vem contradizendo as opiniões representadas, no mesmo autor, pela personagem do caboclo Jeca Tatu, imagem de um povo doente e sem vontade. No contrário, resona com as idéias do filósofo alemã Herder, retomadas por Rugendas ao abordar o Brasil, segundo qual, as elites polidas sendo em todos lugares mais ou menos iguais, o povo representa a verdadeira identidade de uma nação. Monteiro Lobato deixa sabidamente a questão aberta para interpretações diversas e dúvidas. Quem quiser opinar sobre ele terá de considerar o menos o volume A Onda Verde, em que são denunciado vícios tradicionais do Brasil, na sua integra. De algum modo, embora situado em meio urbano, o caso participe do esforço de descrição da vida popular que Monteiro Lobato tinha inciciado nas pesquisa no campo, e que iam, naqueles mesmos anos, desembocar na colaboração com Amadeu Amaral e a proposta de criação de uma Sociedade demológica (de estudo do povo) em São Paulo.

   Cabe nestas páginas consagradas à capoeira considerar alguns detalhes, colocados por Monteiro Lobato -- ou par Filinto Lopes -- para aumentar o efeito de real; portanto, que representam o que era admitido na época em que narravam o caso.

   Longe de ser um vadio ou desempregado como é colocado na lei de 1890, ou nos jornais do final do século 19, o conto apresenta o capoeira como bem inserido na vida social, mesmo que seja "mestre em desordens". Houve marginais engajados à força na Marinha, porém o apelido de "22" mostra que era ativo como capoeira enquanto marinhero. Entretanto, se era Imperial Marinheiro, o termo "removido" para o Norte muito melhor caberia à situação do que "deportado". É que este último relembra vigorosamente as deportações para a região amazónica dos presos civis, feitas nas ocasiões do golpe de Floriano Peixoto em 1892, da Revolta da Vacina de 1904 e da Revolta da Chibata de 1910. O deportados de 1904 foram remetidos, em condições que evocam as dos navios negreiros, para o recém-criado Acre, isto é, na própria região estratégica que foi o motivo para a criação da frotilha do Pará. Deportados também para o Norte, na ilha de Fernando de Noronha, os presos da campanha de repressão à capoeira de Sampaio Ferraz em 1890.

   Rasteira, cabeçada solta, negaça, rabo de arraia: o léxico básico da capoeiragem está presente. Talvez "gingando o corpo" mereça uma menção especial. Na época o verbo gingar era empregado, na gíria do Rio de Janeiro, como alternativa a peneirar, e não tinha assumido o papel de termo técnico do jogo de capoeira. O verbo gingar remete a um gesto comum para um marinheiro, o de empurar um barco balançando um remo colocado em popa.

EMENDADO 12 NOV 2004


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