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Association de capoeira PALMARES de Paris.

Pelejando no canto

Cantar pelejas inspiradas na literatura de cordel passou de moda nas rodas de capoeira. Explicamos porque gostamos e apresentamos a nossa versão da Peleja de Riachão e do Negro.

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retrato Pol
por Pol Briand
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revisado 28 junho 2008

Índice
 
introdução
a Peleja
 
Notas
poesia
uso na capoeira
gravações
tempos explícitos
bibliografia
agradecimento
glossário

Entre os folhetos de cordel, certamente a Peleja de Riachão e do Negro é um que foi muito usado em cantigas de capoeira. Temos gravações de Cobrinha Verde, Bimba, Waldemar da Paixão, Boca Rica e transcrições por Waldeloir Rego 1968. Cada mestre escolhou e adaptou ao seu gosto e memória uma parte do famoso, e fictício, desafio de cantadores.

Hoje preferam-se textos explícitos, que não abrem, como este, para interpretações variadas e contraditórias. Os mestres de capoeira, em vez de deixar o ouvinte buscar a sua própria verdade dentro dessa charada, querem inculcar uma mensagem. É o triunfo do discurso « conscientizador », da propaganda racial ou às vezes evangélica, da exaltação do grupo de capoeira a que pertence-se. O otário leva essas declarações no pé da letra, o esperto desconfia dessa verbosidade e procura os motivos dos cantadores.

Há alguns anos, em Paris, numa daquelas discussões que às vezes acontecem no final de uma roda, um rapaz pernambucano, de quem conhece-se uma gravação em que declara « eu adoro ser Negro », falou em voz de zangado que não gostava daquela cantiga do Riachão, que lhe parecia « no fundo racista ». Muitas vezes a indignação é um truque de político para evitar o debate sobre um ponto duvidoso. É o que aconteceu nesse dia. Não houve discussão. Teria ficado interessado em ouvir os pontos de vista dos capoeiristas sobre as possíveis opiniões ou interesses dos antigos mestres, que levaram-los a cantar tantas vezes esta peleja.

Entendo perfeitamente que o já aludido Pernambucano não gostara da descrição do negro que vem desafiar o Riachão. Porém, por que tomará aquele tipo estranho e muito particular, por uma representação de Negro em geral? Por que assume que Riachão não era Negro? Algumas versões da cantiga lhe façam cantar « Eu não nasci na raça pobre », mas este verso não aparece sempre. Ademais, supondo que fosse proferida entre negros no tempo da escravidão, significaria apenas que quem fala nasceu dentro de uma família livre, e não escrava. Parece que para os mestres bastava aludir ao desafio de cantadores, confronto de poetas que correspondia ao da dança-luta da capoeira, e aproveitar para cantar « Sou livre como o vento » -- o que combinava perfeitamente com os filhos dos libertos do 13 de maio.

Pois outro fato importante é que as gravações dos mestres do passado demostram uma grande liberdade em relação ao texto. Eles passam de um tema a outro por associação de idéia ou para comentar os acontecimentos no jogo sem formalidades, já que encaixa no ritmo. Quem tenta transcriver exatamente o cantado nos discos não pode escapar a esse fato. São vários os comentários que podem se tecer, nesta nossa época de tudo explícito:

Existe, além destas explicações, outra que remete, de novo, à relação que o mestre tem com os que o escutam. Estes, no caso da Peleja de Riachão com o Negro, como nos da Cantiga de Vilela ou da de Pedro Cem, conheciam a história todinha. Podiam escuta-la em muitas ocasiões, cantada em rodas de capoeira ou decorada de folhetos de cordel, em diversas versões, tanto no enredo como no jeito de cantar. Pois gostava quem sabia de fazer do seu jeito. Não precisava-se de dar muitos detalhes, ao apresentar a personagem, já se sabia como ia acabar. É assim que a letra das cantigas de capoeira é repleta de alusões. Estas remetem a casos, fazendo que a relação do cantador à turma de capoeiristas não era, como é com os textos explícitos, a de um padre que faz o seu sermão para o seu rebanho, mas uma de cumplicidade brincalhona com aqueles que entendem para que, ou para quem, o cantador aponta. Ao invês disso, hoje vemos-nos reprovado por ter improvizado, no calor da ação, um verso numa cantiga conhecida. Você errou na letra, dizem. Erro qual? Letra qual?

Éê zum zum
Acabaram com o santo e já mataram um
Ah minha mãe, aí vem o homem
Ô minha filha, deixa vir
Mas eu não devo nada ao homem
E nem o home deve a mim

Éê vem a cavalaria
Ê da Donzela Teodora
Em cada cavalo uma moça
E na sela, duas senhoras
Acabaram o santo e e já mataram um.

Mestre Paulo dos Anjos, Capoeira Angola da Bahia,
LP, c. 1985, faixa 6.

Tocar repetidamente as gravações pode dar a ilusão de que existe um texto certo. Nossa experiência leva-nos a crer que, no contrário, os capoeiristas em geral não gostam de repetir-se, tanto na música quanto no jogo; há quem alerta contra o perigo de ir para casa sempre pelo mesmo caminho; gostam de surpreender com uma mudança repentina de movimento, e, correspondantemente, de pular, na letra, de um tema a outro inesperadamente associado ao primeiro. É assim que, no corrido transcrito no lado, o mestre Paulo dos Anjos passa da repressão do candomblé à cavalaria, geralmente associada à polícia, só que dessa vez é a do conhecido romance da Donzela Teodora, retomado há muito tempo em cantigas de capoeira (Rego 1968:89; 106 cantiga 67; 254).

Voltando à tal de Peleja, naquele dia fiquei atingido pela dúvida. A cantiga é racista mesmo e os velhos gostavam, ou ao menos não ligavam? Gostavam dela então por outras, fortes razões. Se os atuais capoeiristas não gostam do suposto racismo da antiga Peleja, por que não fazem a sua própria versão? Chegou o dia que reparei que o tema da peleja, a poesia épica, de confronto entre duas personagens fortes, Riachão e o Negro, Vilela e o Álferes (ou capitão), sem sentimentalismo, está fora da moda. Pessoalmente, deploro. O sentimento de que a vida é um negócio perigoso, que associo à cautela da pessoa que trepa os seus próprios caminhos apesar das adversidades, me parece mais digno que a verdadeira ou fingida indignação de quem proclama-se vítima. Afinal, o desfecho da peleja não aparece claramente em alguma versão gravada. Se o desafiante Negro feio e desconhecido, em vez de se ridiculizar, domina a peleja ou equipara-se ao célebre Riachão, a peleja, longe de exprimir o racismo, entende-se com uma fábula sobre o preconceito.

Cada um faça a sua própria filosofia, do seu jeito. A roda de capoeira sendo a nossa sala de aulas, laboratório de experiências e prova de fogo, chegamos à conclusão que era tempo de entregar a nossa versão da Peleja de Riachão e do Negro. Garantimos que os versos são autênticos, já que tudo que não lembramos ou copiamos em velhos discos, inventamos.

Peleja de Riachão com o Negro

Versão completa e autêntica...
cada um faça a sua.

Riachão tava cantando,
Na cidade de Açú
Quando pareceu um negro,
Da feição de um urubú
De camisa esfarrapada
E calçado de couro crú.

Beiços grossos e virados,
Parecendo um chinelo
Um olho muito encarnado
Outro bastante amarelo
Ele chamou Riachão,
Para ir cantar martelo.

R. – Eu aqui não estou cantando,
Com negro desconhecido
De quem não se sabe o nome
E nem mesmo o apelido
Ele pode ser cativo
E andar aqui fugido.

N. – O senhor nega porque quer
A razão ele encobre
Quando canto meu martelo
A minha linguagem é nobre
Seu idioma é juntado
E seu verso é muito pobre.

R. – Eu já canto há muitos anos
Não vou em toda função
Do touro arranco a ponta,
Quebro fúria do leão.
Nunca encontrei cliente,
Que pra mim tivesse ação.

N. – O senhor hoje fica sabendo
O peso de um cantador
Em encontro de poeta
Eu não tenho superior
Quando me ver de outra vez
Me chame de professor.

R. – Me diga de onde veio
Me diga p'ra onde vai
Se é casado ou solteiro
Que é o nome do seu pai
Quantos anos você tem
De que trabalho você sai.

N. – Eu não conto minha vida
Pois não há necessidade
Eu sou livre como o vento
Sou filho da liberdade
Eu não sou foragido
Nem você é autoridade,
camará!

Notas

Poesia

Hesitamos muito antes de publicar uma versão escrita. Acontece que às vezes, a vontade de cantar o texto prejudica o ritmo e a ação dramática da peleja. Precisa-se encontrar o jeito de cantar, e isso não se passa através do escrito.

Usamos para esta o sistema de estrofes de seis versos chamadas sextilhas, com rimas nos versos pares, comum nos folhetos da literatura de cordel.

Podem encontrar alguma dificuldade em cantar no ritmo alguns dos versos tirados de discos dos mestres antigos; se for o caso, referem-se àquelas gravações. As sílabas finais não acentuadas, como o lo de chinelo, amarelo, martelo, não contam (quase que não se cantam). Às vezes tem que apertar duas ou três sílabas dentro de um tempo só, ou de alongar duas no tempo onde caem em geral três, para que a sílaba acentuada chegue no ponto certo da música. Acreditamos que se colocasemos tudo no ritmo-padrão

RiguiDUM jala dagán
Pata quási ligun

Idioma fictício. Acentuam-se as sílabas em gordo, e mais ainda as em majúsculas gordas.

faltariam as variações rímicas, que, no canto como no toque de berimbau, evitam a monotonia de uma repetição mecânica.

Uso na capoeira

Às vezes ligam-se os versos pares aos impares, marcando pausa somente depois da rima. Outras vezes deixa-se um intervalo de uma medida (cada verso demora aproximadamente duas medidas), somente com toque de berimbau ou cantando ô meu bem, ô iaiá ou outra fórmula similar. Escutei uma vez ou outra entre as sextilhas uma exclamação como É isso!. Waldemar utilizava com talento os intervalos com toque de berimbaus e a variação do andamento para aumentar o efeito dramático.

A peleja, mesmo assim resumida a oito sextilhas, ainda é longa para a paciência dos capoeiristas que esperam o momento de jogar. Reparem que podem tirar dois versos de cada sextilha (ficando com quadras) e as duas sextilhas que começam com Eu já canto há muitos anos sem prejudicar muito o sentido. Reduz-se assim o texto à metade. Emfim, como o verso combina com o de boa parte dos corridos de capoeira, pode-se usa-lo desse jeito:

Da cobra venço o veneno, Paraná
Quebro o dente do leão

Coro: Paraná é, Paraná é, Paraná

Nunca encontrei cliente, Paraná
Que me desse satisfação.

Coro

Sim, mudei a letra, o texto não é Evangelho.

Gravações da Peleja

Tempos explícitos

Há anos, o livro After Nature, da antropóloga social Marilyn Strathern despertou a minha atenção sobre a tendência moderna a colocar explicitamente conceitos que em outras épocas permaneciam no entendimento comum, sem porém ser falados. Não se trata de resumir este livro; estudiosos da tradição e evolução, da continuidade e das mudanças da capoeira interessarão-se neste reparo do seu Prologo:

… na extensão de uma época, os Ingleses tem trazido em cima da suas cabeças mudanças das mais radicais, pelo fato de esforçar-se vehementemente de preservar um sentido de continuidade com o passado. p. 3 -- tradução minha

Passar para o domínio do discurso articulado o que é em geral tomado por certo sem discussão na vida social, tem sido o objetivo assumido pelos estudiosos de ciências sociais. Mas isto é apenas uma instância de um processo de processo similar na vida social inglesa e euro-americana (p.5). Este processo é particular das sociedades de origem européia. Gostaríamos que os nossos leitores pensassem na dúvida seguinte:

A aparição nas cantigas de capoeira de letra referindo-se explicitamente à África, e na música e no jogo de normas explícitas de atuação referindo-se à capoeira angola, assinala uma re-africanização da capoeira, ou a sua integração no mundo global delineado pela dominação euro-americana, e uma estrutura de poder organizada ao redor da colocação explícita ?

Bibliografia

Agradecimento

Agradeço a Alan A. Boccato Franco pela indicação da reproduão digital da versão histórica da Peleja publicada em 1873.

Glossário

Peleja
Provavelmente será inútil, para a maior parte dos nossos leitores, relembrar o que é uma peleja ou desafio. No Nordeste do Brasil existiram e existem poetas ambulantes a cantar com acompanhamento de violão e pandeiro versos que tratam de assuntos do gosto dos seus ouvintes, tirados da literatura ou da atualidade. Na peleja ou desafio, dois poetas improvisam, alternadamente, os seus versos, seguindo sempre o padrão em que começaram. O mais comum destes padrões é o bloco de seis versos (sextilhas) de sete pés ou sílabas, com rimas nos versos pares. O melhor encontrado nestes desafios acaba imprimindo-se nos folhetos da chamada Literatura de cordel vendidos pelos mesmos poetas. É certo que, na hora de por no papel, eles podem melhorar a sua produção improvisada; e assim a Peleja fico como um gênero popular, sem precisar sempre de ter sido improvisada inicialmente. Estes poemas, que chegam à sessenta sextilhas, são muito mais longos do que se costuma cantar em qualquer roda de capoeira. Mas relembra-se e aplica-se os seus versos às cantigas.

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