Capoeira e escola

por Pol Briand e Lúcia Palmares.
www.capoeira-palmares.fr

revisão gráfica 05 abr 2005

Texto de reflexão sobre a capoeira na escola, a capoeira na França, a savate e a capoeira, as palavras no ensino da capoeira, algumas caraterísticas culturais europeias...

Primeira experiência

1. Um dia com os professores de educação física.

Dia 22 de outubro de 1999 fomos convidados para ministrar um dia de introdução à capoeira para professores de Educação Física e Esporte num subúrbio parisiense. Lúcia recebeu um salário bom para seis horas de aula; resolvemos ir juntos. Certamente não fomos nem os primeiros, nem os últimos neste terreno; entretanto queremos compartilhar da nossa experiência deste dia. E' a nossa segunda experiência na escola; já temos sido contratados em 1996-97 para trabalhos de animação infantil com capoeira em escola do 1o. grau (45 minutos por semana, sem compromisso de ensinar coisa alguma).

Na organização escolar, tem dois tipos de atividade organizadas pelos professores de educação física. As aulas obrigatórias juntam os trinta e cinco alunos de uma secção escolar na mesma hora para fazerem todos a mesma coisa sob a direção do seu professor titular. Muitos alunos fazem o que não gostam, arrastando os pés ora no vôlei, ora no boxe, ora na ginástica. Também faz parte das obrigações dos professores de educação física dirigir treinos especializados com alunos voluntários (futebol, atletismo, etc.) dentro de Associações desportivas pertencendo à federações oficialmente reconhecidas que recebem verba oficial.

A nossa sessão era a última de uma série de três, tendo como temas dança hip-hop, boxe francesa e capoeira, determinados a partir de modismos e/ou de propostas feitas por professores. O quadro administrativo do dia era a formação continua dos professores de educação física; existe um incentivo oficial para eles procurarem atividades que poderiam interessar os alunos. Portanto, se pode dizer que os trinta participantes, de idade, sexo e condições físicas variadas, nem sabiam o que é a capoeira nem eram mesmo voluntários para a atividade, com exceção do iniciador do tema, um professor dentre os mais novos, mestiço, adepto de savate-boxe francesa e que já se tinha interessado à capoeira no ponto de ter tomado umas três aulas e de brincar com amigos.

Manhã

Distribuímos o documento de três páginas que tínhamos preparado (a capoeira na França, origens da capoeira, primeiros passos na capoeira, dificuldades encontradas pelos alunos, tipo de aula para principiantes, roda e duas palavras dos fundamentos). Mostramos videoteipes de roda de capoeira no Brasil, de roda de nossos alunos aqui na França, de demonstração na TV francesa. Passamos então para conversa. Os professores expressaram algum receio de não preencherem requisitos físicos de base; aliás o sistema de ensino não prevê saída para os professores que não podem manter uma condição até a idade de aposentadoria. Outro assunto foi dos alunos, já que ressaltamos no documento e insistimos na conversa que só aprende a capoeira quem quer. Ficou claro que foram os alunos, mais sensíveis às modas e novidades, que informaram os professores da existência da capoeira. Os alunos, segundo os professores, se referem a filmes (como Only the strong) e brinquedo vídeo, não se podendo excluir um ou outro freqüentar aula de capoeira ou roda de parque (os professores não chegando a ser informados destas). A maior dificuldade se encontrou na discussão dos fundamentos. Os professores, impregnados das normas desportivas, dificilmente compreendem o tipo de relacionamento que se propõe dentro da roda de capoeira. Voltaremos no assunto.

Espalhamos todos no ginásio para aprender a gingar. Relativo sucesso aí, os professores entendem logo os movimentos; não foi sempre o caso dos nossos alunos. Claro, as diferenças de condição física não deixaram todos fazerem todo na mesma altura; também notamos que apenas uma pequena parte deles tinha interesse pelas lutas e artes marciais: o que não deixou de criar dificuldades quando botamos eles em duplas. No final sentamos numa roda para demonstração de alguns movimentos e mais conversa.

Conversas

E' preciso relembrar sempre que falar é uma coisa, jogar capoeira é outra; mas no contexto deste breve encontro, a palavra teve grande importância. Os professores disseram de modo relativamente claro algo que muitos dos nossos alunos expressam confusamente. Destacamos a intervenção de uma professora, aprovada por muitos colegas dela, por parecer-nos tocar em algo de fundamental. A professora se revelou incapaz de conceber uma relação em qual não entram juntos a confiança, o respeito e até o amor; em outras palavras, entender um jogo de capoeira onde se respeita o parceiro/oponente, todavia sem confiar nele (ou nela), onde as forças coesivas do grupo (amor, solidariedade) não se dissolvem no antagonismo básico do jogo nem impedem o seu desenvolvimento. À nossa resposta que se joga cheque mate com amigo, não deixa de tomar as peças do outro, respondeu que justamente deve ser por isso que nunca conseguiu aprender esse jogo. E muito menos conseguira participar num jogo em que se objetiva bater no parceiro. Como a conversa se perdia em filosofia, deixamo-la, com o apoio dos poucos que tem alguma prática de artes marciais (savate).

Interessante, talvez, notar os acontecimentos na savate em relação à esse mesmo problema de nível de pancada admissível. Existiu, um tempo, uma divisão nas competições de savate entre "duo" e "assaut", o primeiro com o sentido de apresentação de dupla, sendo notada a correção do estilo, etc., o segundo sendo uma luta. A federação afinal abandonou o "duo", por achar que o valor da arte estava se perdendo completamente, e só ficam os "assauts" (assaltos) moderados unicamente pelas regras e a arbitragem.

Tarde

Depois de almoçarmos na cantina do colégio, enquanto descansamos a comida tratamos da música, com muita boa vontade da parte deles, cantando refrãos simples, batendo palma e escutando o berimbau e os instrumentos de apoio. Depois de breve conversa sobre o papel da música na roda de capoeira retomamos o treino, bem que alguns dos mais novos saíssem cedo para irem participar de competições desportivas e que muitos dos mais velhos desistissem cansados. Concluímos com uma pequena roda (com música de cassete) onde entramos com um aluno nosso que veio pela tarde e os quatro professores que estavam a fim de experimentar com aquilo que já tinham entendido. Uma breve conversa de balanço concluiu o dia. Disseram os professores que falaram, que querem se valer dos movimentos da capoeira nas suas aulas.

2. Algumas dúvidas.

Percebemos na ocasião uma série de problemas de que gostaríamos de discutir, pois tem as maiores consequências sobre a capoeira que vem se espalhando por aqui. Dentre estes problemas, o mais importante para nós é o dos fundamentos.

A capoeira nas relações escolares

Segundo o depoimento dos professores, os jovens se interessariam à capoeira justamente para escapar da rígida disciplina, da especialização e da padronização de comportamento dos desportos. Seria então um aspeto da crise dos desportos que vem se discutindo em revistas especializadas. Professores procurando uma solução para este problema, que não pertence exclusivamente ao ensino desportivo, poderiam chegar a interessar-se realmente na capoeira. A integração da capoeira em atividade opcional seria possível se for integrada como disciplina anexa à uma federação reconhecida, seja de savate-boxe francesa, de boxe inglesa (já existiu um projeto) ou outra. Esta adesão levaria suas vantagens (verba oficial, controle coletivo, acesso a muitos alunos potenciais) e seus inconvenientes (dominação burocrática, critérios alheios à capoeira impostos para o ensino, possivelmente obrigação de realizar competições, limites à independência dos mestres e professores). Temos de acrescentar que a associação de capoeira Maíra -- exclusivamente de franceses, muito rigorosamente sem fins lucrativos e que existe há mais de doze anos -- sempre pôde aproveitar de ginásios escolares graças às boas relações que mantém com professores de educação física, que todavia não participam da associação.

De outro ponto de vista, entendemos que a autoridade dos professores sobre os alunos é fraca. De fato, os alunos mandam: são os professores que procuram algum jeito de interessar os alunos, não são os alunos que procuram algum jeito de aprender dos professores. A situação é similar à do mercado do ensino privado da capoeira, onde a necessidade de conseguir um número de alunos conduz os profissionais à modificações do seu programa.

Neste contexto, o que os professores pretendem decorar do nome de capoeira é a sua táctica para conseguir o interesse de um número suficiente de alunos para animar as aula de física obrigatória. Esperam que um pouco de cultura permitirá aproveitar de um modismo, sem pôr em questão as orientações da educação física escolar.

Falando em fundamentos

Já temos apontado a dificuldade tanto dos professores como de muitos dos nossos alunos em aceitar os fundamentos da capoeira: um jogo que é uma luta, sem regras e sem "resultado" (vencedor), com importância determinante do espírito coletivo (simbolizado pela forma da roda, o canto coral e as palmas) no controle do jogo, existência de hierarquias sútis e variadas (respeito ao mestre que comanda a roda, ao berimbau na música, a quem joga dentro da roda). Sintomaticamente, é sobre o nosso ponto de vista de que os golpes devem ser aplicados com objetividade que surgiu a maior discussão. Mesmo ressaltando que o perigo é controlado, que não aceitamos que o forte machucasse o fraco, houve muito receio em admitir que isso poderia fazer parte do jogo. O ponto de vista não levaria problemas se fosse o de pessoas que não querem aprender a capoeira; mas é compartilhado por um determinado número de alunos nem sempre principiantes. Parece que se espalhou aqui uma visão da capoeira como brinquedo acrobático sem violência. Mesmo isto sendo o fator principal, se pode pensar que o que quem quer aprender uma arte marcial sem violência tem sentimentos pelo menos ambíguos em relação à violência. Leva-nos a formar a hipótese que na educação típica dos franceses de hoje, existe a repressão, sob o nome de "violência" de algo fundamentalmente sadio e positivo na formação da personalidade. Ouçamos estabelecer um paralelo com a situação descrita por Freud no início do século, com o termo "indecente" cobrindo repressão à sexualidade -- repressão oposta à reconhecimento e controle.

Nesse ponto, a capoeira se revela mais sútil do que a educação europeia, e mais eficaz no domínio emocional, e portanto, no controle sobre a violência. A capoeira cria uma percepção mais aguda do relacionamento e exige mais cabeça fria que as lutas regulamentadas. O som do berimbau que dirige a roda, o canto que chama à atenção, o coro e as palmas que relembram a presença da coletividade, são formas mais efetivas de controle sobre o jogo que um regulamento aceito e as vezes burlado, sob o olho de um arbitro.

Educação francesa

Mas é justamente nisto, em que aparecem as carências educacionais do modelo burguês europeio, que se encontram as maiores dificuldades, pois os professores, como boa quantidade dos nossos alunos, aderem ao modelo dominante. A educação individualista, norma atual na Europa, chama a atenção da criança sobre um tipo de racionalidade abstrata que na maior parte dos casos não se pode sustentar em prática, e que muitos pais não dominam por falta de nível sócio-cultural. Não se admite constrangimento da criança, embora é desse jeito que gerações anteriores tem aprendido a conhecer o peso das ligações sociais em quais vivemos. Sem noção de que seria a sua posição na sociedade, o adolescente concebe ainda as relações sociais num modo romântico: há de ser todo ou nada: em nosso caso, jogo de compadre ou luta de morte. Sem hábito de comportamento formal, de rituais cotidianos, se perde a compreensão dos símbolos, do significado dos gestos; é como só se entendesse o explícito. Ora, leva muito tempo explicar tudo, e quando acabou, a hora da ação já foi. Talvez seria nisto que a nossa arte serviria mais para a Europa. Vemos também muito interesse em mostrar os rumos de outra estética, outra movimentação, outros valores morais, outro estilo de relacionamento. Entretanto quando propomos algo diferente daquilo que é costumeiro, encontramos regularmente reações negativas, que não consta da dificuldade de aprender, mas da recusa de aprender, alunos que querem aprender a "capoeira" que já tem em mente, mas não querem aprender a capoeira se fosse outra coisa. Em outros termos, só querem aprender o que já sabem. E num mundo comercial, o cliente é rei.

Se, no afã de conquistar alunos, abandonamos a nossa exigência de respeito aos fundamentos, corremos o risco de perder o rumo, de ensinar uma capoeira folclorizada. De outro lado, se um rigor inflexível afasta todos os alunos, não vai se criar nada de positivo.

Proposta

Não nós interessamos num esqueleto de capoeira, ginga padronizada, sem dobrar o joelho (ficar maior e em pé é grande preocupação dos adolescentes), sem molejo das costas, sem agachamentos nem jogo do chão (não é o objetivo dos alunos aprenderem isso); não queremos, nas relações fora da roda, o preconceito confortável de uma falsa igualdade (sem mestre nem respeito); não aceitamos tudo dentro da roda, da violência à exibição individual de acrobacia. Refletindo sobre a nossa experiência, o problema prático é determinar o tamanho do jogo (no sentido mecânico, espaço necessário para deixar mexer as diversas peças) para manter os fundamentos a longo e médio prazo. Sobre o caráter de luta do jogo, o respeito à roda, a existência de hierarquias flexíveis que ligam os indivíduos em cadeias de deveres recíprocos e diferentes, a aprendizagem de um estilo de mexer, não vemos como abandonar e ainda dizer que o que fazemos é capoeira. São pontos simbólicos, que levaram o seu efeito ao medido que os alunos recuperaram das falhas da sua educação, no decorrer do aprendizado. Insistindo desde o início sobre essas poucas atitudes importantes, confiando na a capacidade dos alunos mais avançados para criar um coletivo ao qual se torna desejável pertencer, ainda podemos levar a capoeira para frente.

Os brasileiros provavelmente irão concordar que as nossas dúvidas não se aplicam à capoeira em geral, nem mesmo à capoeira exportada em geral (duvidamos que a situação seja a mesma nos Estados Unidos). Nossos objetivos em comunicar este documento são que quem se interessa pode aproveitar da nossa experiência para a sua reflexão e que quem tem alguma opinião sobre o assunto nós orienta, para que a capoeira que construímos aqui sempre pudesse encontrar a original do Brasil numa roda.

Lúcia Palmares & Pol Briand -- 26 out. 1999

...Continuação um ano mais tarde...

3. Palavras na escola, palavras na capoeira

No 8 de dezembro de 2000, novamente fomos convidados para ministrar um dia de introdução à capoeira para professores de Educação Física em outro lugar dependente da mesma entidade administrativa (académie).

A sessão deste ano era no segundo dia de um período de dois; o primeiro consagrado à dança Hip-Hop. Nenhum dos trinta participantes, homens e mulheres, tinha praticado a capoeira.

Distribuímos o nosso documento, fizemos breve apresentação falada da capoeira. Os professores enxergam a capoeira como "uma dança oriunda de uma técnica de combate" -- conforme à imagem promovida pela televisão, possivelmente transmitida pelos alunos que se interessam à capoeira sobretudo pelas suas acrobacias, segundo tendência atual da mocidade.

Tínhamos previsto um dia mais ou menos igual ao do ano passado; graças à melhor aptidão física e ao verdadeiro interesse dos professores, houve menos conversa e mais prática. Aproveitamos do excelente conhecimento profissional deles tanto na prática e que em conversa, nos descansos.

Traduzindo termos de capoeira

Este conhecimento encontrou utilidade prática, na hora de mostrar os ataques básicos. Ao ver os movimentos, um senhor que tinha formação de boxe francesa, espontaneamente falou em voz alta o nome usado na savate: para a chapa, falou chassé; para o martelo, traduziu fouetté. Vimos então participantes, reagindo ao nome familiar, executar de repente o movimento que não tinham ainda entendido. Claro, não existe sempre uma correspondência; deixando isso de lado, vamos indagar por que os professores souberam reagir ao nome e não tinha à vista do movimento -- mas primeiro comentamos o efeito da tradução.

Em troca de uma possível sedução exótica, os nomes de movimentos trazem bastante dificuldades para alunos que tem na capoeira o seu primeiro encontro com a língua portuguesa. O léxico popular, rico em imagens para explicar e comentar o jogo, vira no exterior tão difícil que fala de doutor. Acontece com os alunos o mesmo que com o inglês de computador, que ao sair dos países que falam e brincam em inglês, vira sinal de competência técnica, verdadeira ou não: a falta do contato íntimo, lúdico com idioma, mantém o atraso conceptual. Seria muito bem se quiséssemos vender apenas o uso do produto, sem passar a competência; mas como tratamos de ensinar, precisamos usar as palavras que melhor falam ao aluno: se existir equivalente em francês, o melhor é mencionar a tradução.

As palavras na terra da capoeira.

Apesar do Brasil inteiro falar a mesma língua, a sua gramática prática varia, e o idioma muda no decorrer do tempo. Não a gramática dos manuais escolares, mas do jeito em que se fala de acordo com as circunstâncias; e quando uma comissão técnica federal resolve unificar os nomes, é uma circunstância diferente das de um capoeirista, numa determinada academia, cidade e região, para explicar o que fazer para um aluno ou um colega. À comunidade linguística que garante uma comunicação geral, contrastamos a comunidade de vida que alimenta cada dia a imaginação com um fundo comum de objetos de atenção e cuidados, disponíveis para alusões e metáforas. Quando encontra-se uma expressão feliz, ela pode sobreviver ao fato a que se referia. Entra no léxico comum -- e de novo, procura-se expressões mais comunitárias.

Um exemplo: escutamos sempre no S. Paulo cantar, num corrido sobre o Besouro "abalou capoeira abalou", enquanto "abalou Cachoeira [cidade do interior da Bahia] abalou" cabe muito melhor na história do Besouro, valentão e capoeira do Recôncavo. Não pretendemos que a letra Cachoeira seja mais certa que a letra Capoeira; acreditamos que é o original, mas isso não traz julgamento de valor. No nosso gosto, é melhor, por que gostamos da alusão exótica (o passado também é exotismo). Mas é menos "viva" no S. Paulo e menos ainda nas rodas parisienses, onde a palavra "Cachoeira" sempre precisa de uma explicação, enquanto o termo "capoeira" é conhecido -- as vezes um de pouquíssimos termos portugueses conhecidos.

Falando ontem e hoje

Essa mudança na letra nós interessa sobretudo por indicar uma evolução de pensamento. Outrora, não se cantava "capoeira". A letra das músicas velhas aludem mais do que explicam. São poéticas, porque a interpretação é geralmente mais importante do que o explícito.

Acreditamos que os antigos não iam gostar de uma letra tão bruta que só fica repetindo capoeira, capoeira, capoeira. Também, a capoeira era, senão absolutamente proibida, pelo menos reprimida e mal vista; hoje vemos moços se gabarem de ser capoeiristas. Pode ser, entretanto, que a diferença seja mais profunda, e que a explicitação seja um sintoma de mudança, que o gosto para a indireta, a metáfora, seja um sinal cultural, que ultrapassa a simples necessidade do oprimido. Pois, se o oprimido não fala o que pensa porque não pode, sob pena de repressão (perda de emprego, de crédito, de moradia, problemas de polícia), também o político fala sem dizer tudo o que pensa, porque o exercício do poder implica o segredo; o escritor e poeta deixa espaço para a imaginação do seu leitor; o sábio cala a boca, porque sabe mais sobre a transmissão do saber.

Modelo europeio moderno

A insistência em explicar é integral do modelo cultural europeio na sua evolução atual, como o mostram numerosos estudos. Vem em oposição e abandono dos modelos africanos e asiáticos que valorizam mais o silêncio e o segredo. As exigências escolares em dominar o discurso e a lógica contribuam certamente ao crescimento do modelo explícito; também o "texto explícito" é muito representado no nosso cotidiano pela televisão, garrula provedora de explicações simples, e que, apesar de dispor de imagens, dá uma constante prioridade ao comentário.

Os capoeiristas que usam o "texto explícito" para explicar tudo, juntando-se à corrente geral na sociedade ocidental, poderiam perguntar-se se não se afastam de uma sabedoria e de um conhecimento que poderia ficar muito aproveitável. Esse movimento geral não poupa os angoleiros, supostamente tradicionalistas. É só escutar as conversas, comparar as cantigas gravadas recentemente com os discos velhos e antigas compilações de letras, como a de Valdeloir Rego no seu Capoeira Angola (1968), ler as apresentações no Internet, nas revistas, nos livretos de discos. É verdade que em determinados casos, suspeitamos que a fraqueza poética, a letra demasiadamente explícita, tenham por causa imediata a preguiça ou incapacidade de aprender a criar formas poéticas, combinada com a relativa facilidade de satisfazer o orgulho gravando músicas, sem precisar de submeter-se à critica.

Nosso comentário à letra das cantigas poderia também servir de base para refletir sobre outras partes do léxico da capoeira. Os nomes de toques de berimbau, tão como os nomes de movimentos ou golpes, provocam muitas dúvidas, e umas tantas respostas. Os sentidos das palavras mexem e esquivam as presas da mente dos estudantes.

Constuindo o léxico

Até dentro da prazo do nosso convívio com os capoeiristas, um quarto de século no caso da Lúcia, a metade disso no de Pol, as listas de nomes de movimentos já sofreram arranjos: o que parece natural numa disciplina viva.

Comparando com o sistema de nomes da savate, repara-se que em francês, os nomes são gerados seguindo a gramática da língua culta: nome de classe de movimento (as vezes implícito), modificado por um ou dois adjetivos. O número de palavras é reduzido, a combinação produz o sentido. Na capoeira, o que produz o sentido é a referência a alguma parte do cotidiano, as vezes antiquado: coice, chibata. A metáfora é mais ligeira do que a pesada construção gramatical. Ela cria uma multiplicidade de interpretações individuais, gerando adaptações inéditas; isto é, inovação, cuja adaptação ao mundo se testa depois. De outro lado, quando se trata de ensinar para grande turmas, quando não pode ter esclarecimento de um termo por meio de outra metáfora, quando o referente (coice, chibata) não existe mais no cotidiano, a palavra que nasceu imagem poética vira gíria de professor, para acabar em listas oficiais. Neste ponto, a pesada combinatória de termos meramente descritivos funciona melhor. No decorrer dos anos, escutamos os professores passar a usar mais o sistema combinatório, aumentando a nomenclatura dos golpes, em resposta também ao pedido de jornalista, já registrado há dezenas de anos, de 'quantos golpes a capoeira tem', que embaraçava tanto os mestres antigos.

Pois bem, acontece que este sistema que vem substituindo as antigas metáforas poéticas também é explícito e analítico -- decompõe um jogo em golpes e um golpes em seus elementos conceituais. Portanto, participa do mesmo movimento que a letra das cantigas. Há de contrastar essa tendência com as afirmações misteriosas de mestres -- tais como "A capoeira é uma luta, e uma luta violenta" e "não tem golpes" (Mestre Pastinha, Capoeira Angola, p. 7, Manuscritos, p. 16b e 21b), ou "Jogar capoeira é colocar o corpo em oração (Mestre Sombra) -- e seu efeito no aluno. Quem quiser reagir contra a perda cultural e filosófica cor-respondante ao aumento da eficiência pedagógica técnica para alunos europeios ou europeanizados, precisará de enfrentar os dois aspetos. Prestando mais atenção ao uso das palavras no ensino da capoeira, reparamos uma tendência geral em alunos europeus adiantados em falar muito para os novatos a eles confiados. No esquema de aula em que os alunos, juntos imitarem o professor a frente deles, o método com que aprendemos trata as explicações e os nomes de movimentos com pouco respeito. No melhor dos casos, o professor faz o movimento e o chama no mesmo instante. O número de movimentos é pouco, não demoram de ser conhecidos dos alunos, que entretanto precisam de ficar sempre prontos e de observar mais do que escutar. Eles vão assim melhorando a resposta instantânea à situação, sem a demora do caminho verbal. No contrário, se entregamos essa parte a um aluno adiantado -- isso é experiência vivida do Pol -- este toma cuidado de deixar o aluno a vontade, de chamar o que vai fazer com antecedência, e em contrapartida coloca um número maior de movimentos. O efeito é a reprodução do domínio da palavra, onde ela nada tem a fazer. É uma coisa que gostamos de acentuar, pois cansamos de falar uma coisa para um aluno que retruca "je sais" (sei) -- atitude bem francesa -- e depois, não faz. O "sei" dele significa apenas que ele relembra já ter escutado esta canção. Mas sabe ele que é diferente identificar a música e poder cantar ?

4. Dois jeitos de ensinar

Embora não quiséssemos demorar no assunto, apresentamos em forma de conclusão um pequeno quadro da evolução:

tema (1) (2)
texto alusivo (poético) explícito
reação principal ao gesto texto
modo de pensar global analítico
ensino individual (mestre-discípulo) coletivo
controle do jogo pelo ambiente comunitário regulamento
aluno membro criador da arte e do coletivo indivíduo consumidor

Quadro 1. -- Atitudes.

O pensamento pedagógico oficial no ensino público -- a base da formação dos professores, está claramente enquadrado na coluna (2). Sabemos que a atitude de indivíduo consumidor é o modelo dominante ; o que significa que tem forte atração. De outro lado, o cobiçado título de Mestre, mesmo desvalorizado por diplomas entregados burocraticamente -- sistema de regulamentos da coluna 2 -- pertence, no que o faz diferente do de professor, ao conjunto de atitudes da coluna 1. Cada um ginga entre as duas atitudes, procurando escapar dos perigos. Nosso objetivo era de compartilhar algumas coisas relativas as palavras da capoeira. Estamos na beira de sair deste assunto, mas a forma verbal em que nos exprimimos não deixa irmos mais longe. O resto, é para a aula e a roda de capoeira.

Lúcia e Pol, 8 fevereiro 2001

Lista de artigos nossos sobre capoeira.


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