Logo Capoeira Palmares de Pariswww.capoeira-palmares.fr

Association de capoeira PALMARES de Paris.

A organização da capoeira.

Chamam-nos para construir uma federação de capoeira -- Para fazer o que, praticamente ?  -- A organisação atual da capoeira: academias, linhas, estilos -- Como construiram-se organizações sociais: respeito às solidariedades existantes -- O importante é saber jogar juntos.

bandeira francesa
pas de version française
bandeira britânica
no english version

selo do autor
por Pol Briand
mail symbol
contact

revisado 27 maio 2006

Embora ouvimos falar pouco no dia a dia da nossa prática de capoeira, lemos bastante e recebemos conselhos, pedidos, e até pressão para aderir a uma federação de capoeira ou fundar tal orgão.

Até agora, temos recebido estes pedidos com respeito, e quando provêm dos nossos mestres, sempre nos temos prontos para cumprir as formalidades administrativas requeridas; mas não temos participado ativamente da constituição de tal órgão. Primeiro, não entendemos muito de administração -- ja achamos pesada a gestão da nossa pequena associação. Mas essas técnicas de administração, poderíamos nos empenhar em aprender, como também poderíamos contratar especialistas assalariados (com a inevitável repercussão sobre o preço das aulas) se tivessemos encontrado quem nos explicasse por que constituir federações. Entretanto, ao escutar os entusiastas, as federações tem vantagens tão evidentes que nem precisa falar.

Políticos ligados ao meios esportivos, funcionários de administrações públicas de controle dos esportes, tem pressionado a gente para criar tais federações. Distribuem verbas, geralmente em forma de uso gratuito de equipamentos públicos, querem controlar o uso, entendimos perfeitamente isso. Seria para eles mais fácil lidar com uma organização responsável da capoeira. De outro lado, eles chegariam assim a dispor de um porta-voz para que a capoeira passe a assumir, dentro da sociedade, o mesmo papel que eles atribuem aos esportes; ora, se nós, e nossos alunos, escolhimos a capoeira, numa larga medida é por que a capoeira é diferente. Alèm de questões de modismo, o nosso aprendizagem pode ser entendido com a busca de uma visão diferente da visão comum em nossa cultura, que justifica a nossa referência aos antigos mestres afro-brasileiros. Mas antes de qualquer outra discussão, queremos apontar um detalhe caraterístico da atitude dos que vêm solicitar a nossa adesão à federações: se trata, segundo aquelas honoráveis pessoas que vêm solicitar a nossa adesão, de organizar a capoeira.

Ora, depois de alguns anos dentro daquele meio da capoeira, temos a nítida impressão que a capoeira já é organizada. Cada um de nós tem um mestre, que por sua vez tem mestre. O conjunto de pessoas oriundas do mesmo mestre, que em geral por sinal conseguem jogar melhor um com outro que com alheios, forma uma linha. A Angola e a Regional constituem opções entre os quais os grupos orientam-se e identificam-se, independante de muitas diferênças que podem existir entre eles. Também, sempre nós foi dito que a capoeira tem a sua hieraquia. Emfin, nas mesmas regiões, os capoeiristas tem mantido laços de confiança ou desconfiança, de oportunismo ou de cortesia, de rivalidade ou de apoio mútuo. Tudo isso é estrutura, tudo isso é organização.

Essa organização real, que não segue o modelo administrativo proposto pelos promotores de federações gerais, é tão forte que até impús à Confederação Brasileira de Capoeira, apesar da sua própria tradição estatal, de reconhecer a autonomia das linhas que veiou a federar. Mas as consequências não foram reconhecidas, e a CBC não conseguiu abranger alguns setores significativos da capoeira.

Assim, para nós, os dois obstáculos ao funcionamento das Confederação de capoeira existentes ou a criar são primeiramente a falta de definição dos serviços que a Confederação poderia prestar para os seus aderentes, e segundamente a falta de reconhecimento das estruturas existentes da capoeira.

O Sr. André Lacé tem proposto, em um dos seus artigos, que se lembra, para a organização da capoeira, do que aconteceu com o Candomblé, e até que se usa o mesmo processo para defender frente às autoridades civis os interesses da capoeira. Não conhecemos ao fundo este assunto ; vamos citar outro exemplo, para estimular as imaginações.

No fim do século XIX, na França, vinha organizando-se o movimento operário. Não cabe aqui a discussão ética, política e filosófica deste movimento, mas de examinar as formas institucionais em que se criou. As suas organizações surgiram em efeito dezenas de anos depois de filósofos e políticos ter constituído a primeira Associação Internacional dos Trabalhadores, e a estrutura concreta do movimento não seguiu o plano daqueles precursores. As organizações de operários, quando existiram, tiveram duas vertentes. Os operários agruparam-se em Uniões Locais na base dos laços da solidariedade entre vizinhos contra os patrões du lugar, para obter, por exemplo, um salário mínimo na região. Outras organizações integravam, às vezes à nivel nacional, todos os que encontravam-se num mercado concorrencial único -- guarda-livros, metalurgistas, ferroviários, costureiras, electricistas, etc. -- para obter melhoramento do tratamento da classe. Quando o sucesso do movimento tornou possíveis e necessárias federações e confederação, para lidar com os aspetos legais do relacionamento trabalhista, ainda precisou de uns quinze a vinte anos para conseguir um modo de juntar a forma local de solidariedade à forma classista. No final de contas, existem hoje várias confederações sindicais diferindo principalmente pela orientação política, mas que tem aproximadamente a organização definida atravès da experiência da primeira Confederação Geral dos Trabalhadores. Nessa estrutura, os dois tipos de solidaridade são reconhecido, e portanto, em princípio cada membro tem dois votos, um dirigido através das organizações territoriais, outro através das federações de classe.

A lição para quem estiver a fim de estruturar administrativamente a capoeira é que não se pode negar as solidaridades efetivas para isso. Notamos que um problema similar existe plano da política, na representação, ora das grandes opções exprimidas em partidos nacionais, ora dos interesses regionais.

Já temos apontado a existência de linhas dentro da capoeira. Essas linhas, que seguem o método de transmissão e de recreação dos saberes da capoeira, facilitam o jogo entre os pertencentes (opostos aos exteriores). Notamos, na experiência recente, vários casos em que esse sucesso prático que é o fato que conseguir mais facilmente uma concordância em definir o que é jogar, serviu para definir uma agrupamento de academias, talvez uma versão moderna, despida das referência à família, da mesma necessidade. No que tange a um projeto de federação ou de confederação bem-sucedida, a falta de consideração às linhas dentro da capoeira será fatal.

No decorrer dessa reflexão, que não serve continuar isoladamente, nos temos definido uma base tanto para o papel das federações que o modo de organizar-se que pensamos possível. Cabe aos mestres saber o que fazer com isso.

Pol Briand, 26 janeiro 2002


Voltar para a lista de artigos.
Liste des articles.
List of articles.

Página de base em português da associação Capoeira Palmares de Paris.


Lucia Palmares & Pol Briand
3, rue de la Palestine 75019 Paris
Tel. : (33) 1 4239 6436
Email : polbrian@wanadoo.fr

Association de Capoeira Palmares de Paris